O velho abanou a cabeça para confirmar aquelle juizo enthusiastico e tomou um ar benevolo e philosophico, de homem já alheio á paixão e que deixou á mocidade o direito de sentir aquellas commoções.

—Você quer Ierecê para sua mulher? perguntou elle com alguma pausa e gravidade. Hade lhe dar comida e roupa.

Alberto vacillou, mas Morevi, sem esperar pela resposta, pegou-lhe na dextra e, abrindo-a, n’ella collocou a delicada mão da neta, ao passo que murmurava umas palavras cabalisticas, com os olhos meio cerrados.

Ierecê não fôra consultada e durante a ceremonia perfunctoria que a ligava, segundo os costumes de sua gente, a aquelle homem desconhecido por um laço que não ella, mas só elle, podia romper, mostrou-se completamente indifferente.

Uma só cousa a occupava: era o collar de contas de ouro que no seu peito os ultimos raios de sol illuminavão de pontosinhos scintillantes como que a desferirem chispas, que lhe aguilhoavão docemente a feminil vaidade.

CAPITULO II

A primeira semana correo para Alberto alegre e animada. Desapparecêra de todo a febre, e elle se sentia como que retemperado pelo socego do retiro em que vivia.

De manhã muito cedo sahia para a caça e só voltava quando o sol ia alto e que o calor apertava, trazendo sempre pesada enfiada de passaros, uns notaveis pelo tamanho, outros pela plumagem.

A essa hora, Ierecê tinha por costume esperal-o com uma cestinha de fructas da terra, bananas, mamões e jaracatiás, ou outros mais incultos como o mureci dos cerrados, a marmelada do campo, a guabiroba ou a uvaia, que, apezar do sabor agreste agradão bastante ao paladar.