A principio Ierecê considerára Alberto como um ente de natureza superior, a quem devia obediencia céga, emquanto lhe servisse de méro passatempo; depois foi-se possuindo de admiração e sobretudo reconhecimento ao vêl-o tão occupado de tudo quanto podesse lhe realçar a natural belleza ou agradar ao seu espirito.

Como ella se contemplava ao espelho, radiante de orgulho e alegria, quando aquelle portuguez[11], de fronte alva e espaçosa, lhe arranjava com singular paciencia os abundantes cabellos, formando caprichosos e sempre novos penteados?!

Como ouvia attenta, com os bellos olhos arregalados e a boquinha entre-aberta de admiração, as narrações, umas reaes, outras phantasticas que elle á tarde lhe contava, quando, deitados ambos sobre a relva diante da choupana, vião o sol se esconder por detraz da matta e a noute subir da terra para os céos?!

N’essa hora, tudo é tristeza para a alma que as sombras da natureza parece quererem tambem invadir. Entretanto era quando o coração de Ierecê pulsava com mais segurança e calma, embóra o pio aterrado da jaó acordasse melancolicos os échos da floresta, embóra o bacuráo atirasse aos ares as plangentes notas da aspera garganta.

A sua faceirice natural e innocente era ajudada por intelligencia vivida e pela delicadeza de instinctos: assim para logo desterrou do rosto e braços as pinturas que costumava traçar com urucú e genipapo; deixou de cuspinhar, como fazem a cada momento os indios e de comer rapida e vorazmente, empenhando-se emfim por merecer applauso pelo abandono prompto d’este ou d’aquelle habito menos conforme com o modo de viver civilisado.

Além d’isso, apenas foi avisada por Alberto, occultou com modestia os seios, trazendo sempre diante do peito um lenço preso á cintura por duas pontas e atado pelas outras ao pescoço.

O que era bom e poetico, ella conservava; assim, frequentemente entretecia capellas e collares de flores para os cabellos e braços e todos os dias renovava a elegante palma ou a folha de samambaia mimosa que, segura por delgado cordão, lhe acariciava a fronte como verdejante pennacho.

Em principio Ierecê a custo sahia do silencio: depois, observando a bondade com que a tratava Alberto, arriscou algumas palavras em chané, logo após em portuguez, e não tardou muito que ficasse garrula a mais não poder, papagueando o dia inteiro, ora em sua lingua, ora na outra, que ella entendia perfeitamente, por isso que fôra criada na aldêa do Bom Conselho, perto de Albuquerque, onde recebêra das mãos do missionario frei Marianno de Bagnaia as aguas do baptismo e o nome christão de Sylvana.

Das praticas e orações religiosas que aquelle virtuoso capuchinho lhe ensinára na aula de catechismo, só conservára o signal da cruz, symbolo que nunca deixava de fazer pela manhã ou á noute, quando ia se deitar.

Uma vez quebrada a barreira de constrangimento que a separava de Alberto, nasceo no espirito da india o desejo de tornar-se agradavel e bemquista. Então por uma combinação de cuidados graciosos e lembranças felizes, ora ornava o interior da choupana de flores e de festões de folhas, ora contava historias de sua tribu, n’um portuguez muito atravessado e custoso, ora trabalhava com afinco em tecer uma faixa com desenhos de variegadas côres para ser atada á cintura de quem a possuia, ora porfim mostrava-se repentinamente amuada para logo voltar ás boas com um excesso nunca visto de momices e caricias.