Em meiados do anno de 1861, o vaporsinho Alpha, sahindo da capital da provincia de Matto-Grosso, desceu para Corumbá, e, por ordem do presidente de então, o coronel Antonio Pedro de Alencastro, demandou a fóz do rio Mondego ou Miranda, cuja corrente foi cortando aguas acima para conhecer das condições de sua navegabilidade durante a estação secca até a villa de Miranda, a qual assenta na margem direita e a mais de 40 legoas do ponto em que o volumoso e revolto caudal faz barra no grande Paraguay. Cumprida a commissão sem grande estorvo, poude o fumegante barco atracar junto á barranca da povoação, alvoroçando repentinamente de alegria e perturbando de modo nunca visto o costumado e natural socego d’aquella distante localidade.

Nucleo mais povoado de toda a immensa zona que, sob a denominação de districto de Miranda, se estende ao sul da provincia desde o rio Piquiry até o Apa e o Paraná, n’esse tempo gozava a villa de fóros de importancia que nem as febres endemicas em determinados periodos do anno, nem o desenvolvimento rapido de Nioac, situado a 25 legoas mais ao sul, havião podido lhe tirar.

Tambem os seus habitantes, deixando-se levar por um sentimento de exageração, não vião razões para lhe negar o pomposo titulo de cidade, justificado senão pelo estado de prosperidade que tinha então, ao menos em vista do engrandecimento que lhe podião garantir, em futuro não muito remoto, as suas relações, já de annos iniciadas, com as provincias de S. Paulo e Paraná por meio dos rios Ivinheima, Brilhante e Nioac de um lado, e Miranda do outro.

A villa tinha, além d’isso, tradições historicas que erão repetidas com desvanecimento.

Pelo que dizião, os seus alicerces descansavão sobre os destroços do forte Xeres, levantado em passadas éras pelos hespanhóes como paradeiro á influencia portugueza consolidada, no centro d’aquelles sertões, em Camapuan e que, arrazado em 1580, foi substituido por outro em que fluctuavão as quinas do dominio legal.

Entretanto, apezar d’esse passado tal ou qual illustre e das promessas do futuro, varios e influentes partidarios contava a idéa, aliás justa e sensata, da necessidade de se mudar a séde da cabeça do districto para outro qualquer ponto menos exposto á acção deleteria das febres intermittentes que as enchentes e transbordamentos do rio annualmente trazião e que atacavão não só os recem-chegados e visitantes de passagem, como muitos dos que podião se suppôr acclimados e, ás vezes até, alguns dos mais antigos moradores.

Os lugares indigitados para essa mudança erão Pedra Branca, poucas legoas acima, e a Forquilha, ainda além e na confluencia dos rios Miranda e Nioac.

Com effeito, quanto mais se fugisse da costa do Paraguay, baixa e sujeita ás inundações e, conservando a regalia de desimpedida navegação, se procurassem as terras altas proximas á serra de Maracajú e que se ligão aos ubertosos campos de Vaccaria, cujo progresso era já uma realidade, mais largos horizontes se abririão para a villa, libertando-a dos inconvenientes que lhe davão a reputação de reconhecida insalubridade. N’esse caso, nenhuma indicação reunia com fundado motivo mais adhesões do que a da Forquilha, bella e elevada planicie assente no entroncamento de duas correntes, cujo accesso á canôas grandes e carregadas era facil e já aproveitado.

Como que para difficultar, porém, a realisação de tão conveniente deslocamento e desanimar os mais ardentes propugnadores da medida, não fazia muitos mezes antes da chegada do Alpha, havião sido lançadas no lugar da antiga palissada a que devia a villa o appellido de forte, as bases de um grande quartel, edificação que, concluida, tornou-se sem contestação uma obra notavel n’aquelles afastados termos e foi em 1866 vandalicamente incendiada pelos paraguayos por occasião de se retirarem do districto para operar a sua concentração na fronteira.