D. Rita (com indignação).—Oh! Sr. Ribeiro, esta é forte!...
Ribeiro (com ar conciliador e fallando com volubilidade).—Não é isto que eu queria dizer... Mas, attendão bem... Essas luctas, essas difficuldades anteriores a um consorcio gravão-se na memoria eternamente... São motivos de conversa para uma vida inteira... E quando voltarem os anniversarios! Que fartão de recordações! (com fogo) Imaginem vocês dous esposos, 25 annos depois de um rapto. «Tu te lembras, fulana?» pergunta o marido. «Oh! se me lembro, responde a mulher.» «O signal para appareceres na janella era assim (assovia baixinho e prolongadamente) Teu pae estava dormindo»...
D. Rita (procurando interrompel-o).—Que historias, Sr. Ribeiro!
Ribeiro (continuando).—«Abriste a janella devagarsinho... Eu puz uma escada... Hi! que medos! Teu vestido agarrou n’um varão de ferro... Eu pucho; elle rasga-se»...
D. Rita.—Mas isto é até indecente...
Fonseca.—Deixe ir... n’elle é o poeta que falla...
D. Rita (rindo-se).—Poeta!... Aos 50 annos e com dous mil contos de reis!...
Ribeiro (pausadamente, meio pensativo e como que fallando para si).—Não o sou, devéras!... Mas que geito eu tinha!... Parece-me que se houvesse estudado em regra, só fallava em verso... Não me matarão o corpo... não; mas quanto á alma posso exclamar como Nero (batem palmas na porta do fundo.—Ribeiro muda de tom e alto).—Quem é?... É sempre assim! Estava com uma idéa bonita, zás, me interrompem... e fica tudo perdido. (Novas palmas e fortes) Toda a minha vida foi assim... Mas, quem é? Entre (caminhando para a porta) entre pelo amor de Deos!
(Alfredo Rocha entra)