[[9]] Effectivamente, não é facil averiguar, com precisão, o mais da trajectoria da vida de Shakespeare, e, sobretudo, os episodios finaes da sua morte e inhumação,—ainda pelo estudo dos quatro mil volumes que, a seu respeito, a curiosidade dos eruditos de todas as nacionalidades accumulou.

«Tentar falar ou escrever ácerca de Shakespeare, diz Lewis Theobald, é entrar num espaçoso e magnifico edificio, por um corredor estreito e tenebroso».

O que mais delle se apura é que colheu obscuramente a sua obra da mesma razão anonyma que o prendeu á Terra.

Como, de egual arte, é assente que o homem mais querido e admirado que ainda houve, foi tambem, até ha pouco, um dos mais maltratados:—O poeta maldito—eis a maneira por que J. Richepin com a maior justeza, o indica! (Vid. A TRAVERS SHAKESPEARE, conferences faites à l'Université des Annales.)

Pope, no prefacio definitivo da sexta edição do in-folio de 1623, considera-o um mero cortezão da plebe.

Voltaire chamou-lhe grosseiro e barbaro, «impossivel de se fazer ouvir pela mais desprezivel gente da França ou de Italia»—em derradeira analyse, um selvagem bebado!

O reconhecimento publico do genio do grande tragico iniciou-o o romantismo allemão, sobretudo pelos estudos de Lessing, Goethe, Schiller, Herder e Schlegel. Em França, apparece pela primeira vez bem tratado nos trabalhos de Staël e Chateaubriand.

Revelado o seu genio, começaram os criticos a hesitar sobre a idoneidade do Auctor.

A muitos pareceu, de momento, pouco conforme com tão prodigiosa obra, o mais intimo da sua historia.

Sigamos nós, comtudo, este fio biographico,—tambem o mais geralmente acceito como verdadeiro.