Ora, derivando dos monumentos attribuidos ao genio arabe, á razão de sangue[{42}] que flue na gente do sul da Peninsula, chegamos facilmente á averiguação do grande valor da tutela semita no nosso movimento tradicional, mercê daquella herança—tutela sobremaneira documentada, no mais do nosso lyrismo, como, em regra, em toda a nossa obra artistica.
E, assim, nos encontramos, muito naturalmente com o caso de Fialho d'Almeida.
De facto, dentre os grandes plasticos da Peninsula, quem mais que o grande Artista conseguiu ainda praticar um semelhante ou equivalente embrenhado de esmaltes e de linhas, o segredo da luz e da côr, identica riqueza no processo de exprimir Arte, toda aquella ancia de vida luxuriosa que ergue o mais da obra arabe, e, em que domina sempre, ao lado do culto do individuo, considerado na sua religiosidade como no seu luxo,—a preoccupação alacre do supremo culto da Natureza![{43}]
E, entretanto, não foi, ainda, sob um tal ponto de vista que principalmente nos demos a estuda-lo.
A verdade é que fiamos pouco do rigorismo dos methodos geralmente considerados como mais logicos, por mais naturalistas, os que tudo explicam pela razão exclusiva da procedencia e do meio—quando se trata de comprehender emotivos da estatura de Fialho, cuja obra precisa, a nosso entender, principalmente ser considerada sem opinião previa, ou seja a toda a luz dos seus livros, e onde ha, a par das admiraveis fatalidades das suas taras de artista do Sul, o conhecimento, os commentarios, como a presença ou suggestões de tudo o que nesse rodopio de Arte, que foi a segunda metade do outro seculo, podia considerar-se de mais interessante ou notavel.
Mas caminhemos vagarosamente. Em[{44}] primeiro logar, convem ter presente que ha nos recursos de Fialho d'Almeida um grande numero de facetas e a tal ponto imprevistas e admiraveis, que, a elle proprio, o offuscaram, perturbando-o, e impedindo até que realizasse o que para todo o auctor deve ser o primeiro fim—a obra de conjuncto, que, exactamente, resulta do ajustamento ou systematização de todo o seu trabalho, de molde a levantar a figura do Artista se elle é um temperamento, ou o objectivo da sua Arte, quando elle tenha de desapparecer, em sacrificio á sua mais propria missão.
O tempo é ainda um material ao dispor dos artistas, embora, quanto a nós, o peior dos materiaes.
Fialho devotou-se-lhe, talvez, excessivamente. Pois que tinha auscultado a miseria do povo, no seu instincto, por desventura apurado nos primeiros annos da sua vida[{45}] de acaso, não raro deixou falar o coração, para alem da sua mesma canseira de Artista.
Quantas vezes elle, que foi um espirito alto e pairante, se deu a desmedir o grito dos que a propria miseria, confinada da cobardia congenita das desgraças populares, havia tornado quasi aphonos, e que ainda, por uma razão de indole, eternizou vivo e plebeu,—tal como lhe sahiu, ao primeiro golpe, nas paginas formidaveis dos Gatos!
Foi isto um delicto de Arte, seria um bem?