É de justiça lembrar que tambem Fialho foi dos primeiros a corrigir os impetos dos pretendentes que, de todos os lados, surgiram com a sua conta de serviços; embora o facto valha unicamente a justificar a sua boa fé.
Era tarde. Á sombra das suas paginas, como das de Ramalho, Junqueiro, Eça e Bordallo, por lembrar os maiores, se tinham elles organizado de vez, entretanto que a alvorada do regime abria logicamente por um banquete!
Para mais, quasi todos os demolidores, companheiros de Fialho, tinham desapparecido. Ao acaso do tempo ficara, unicamente, Ramalho—velho, surdo a louvores como a insultos, fechado na sua cella de valetudinario, em Lisboa, de facto uma especie de santo de nicho do bairro alto, a quem já, a bem dizer, ninguem recorria, de cujos milagres ninguem mais queria saber...[{69}]
Bordallo morrera, providencialmente, antes do bôdo.
Alem de que, quem se atreveria a continuar-lhe a obra? Onde o artista da sua coragem, á altura de um jornal nos moldes do Antonio Maria? Onde o redactor graphico do seu estylo, e, mais ainda, onde as personalidades-motivos a enchê-lo?
Como quer que seja, Fialho, leal ao que, de começo, se impuzera, tentou ainda o ultimo esforço, contra o muito do que succedera e lhe repugnava tanto como á consciencia, á sua sensibilidade, acuradissima, de Artista.
Era tarde, repetimos. Já ninguem o ouvia, demais que elle proprio tinha perdido o vigor das suas primeiras investidas!
E, entretanto, o Artista crescera ainda, depois das novas provações, ou antes tinha-se[{70}] accrescentado daquella razão de amargura que a vida empresta sempre, cedo ou tarde, aos temperamentos da sua impressionabilidade, e que nelle deu a transfiguração notavel de um ousio artistico sem egual, e de que é, sobretudo, exemplo essa obra trasbordante da sua derradeira colheita—«Barbear e Pentear».
Este livro, sublinhado pela explicação amarga—Jornal dum vagabundo, que aliaz emprega noutras obras, attinge, effectivamente, o maximo da sua perfeição exquisita.
É ali que verdadeiramente elle trata a mulher-fada, tão de sua predilecção, e de quem se dá a referir a toilete, á luz dos móres recursos, escrevendo da sua razão de vestir, como arte maxima; das joias que[{71}] redundam do seu imaginar em preciosos esmaltes vivos, especie de insectos inertes, quasi pedras mornas por não arrepiarem a carne-seda das animadas estatuas que são chamadas a guarnecer;—de tudo, emfim, o que do abraço caprichoso da arte e da natureza elle poude aventurar de imprevisto na ideação dum espectaculo para embriagar sensibilidades!