O mesmo sestro que levara Fialho a apolegar a gente miuda, por attingir a expansão maxima do seu inegualavel empirismo de Arte, de semelhante forma lhe pautou a solução da vida em riso, que a breve trecho e involuntariamente derivava em farça. Ainda mais, deliciou-se da união dos elementos mais difficeis, como impossiveis até, quando, pelo drama convulso da sua polypersonalidade, se deu a parabolar[{112}] da vida real o mundo imaginativo das suas extravagantes suggestões de artista.
Dahi as phantasias, no genero daquellas, ao lado de outras em que sobresaem mulheres como a Madona do Campo Santo, a quem dota da galantaria e gestos nobres dos cysnes, figurinha de suave illuminura, e que, mais ainda que do seu vicio de comer flores, elle parece alimentar do pão azymo da sua Arte!
Mas não nos antecipemos á referencia que della nos deixou.
Reunamos os fragmentos da estatua da Madona:—«restos, diz o Escriptor, da mais assombrosa esculptura que tem visto o mundo, e que, soldados por agulhas de ferro, ornam hoje o tumulo de Judith.»[{113}]
Ora a Madona do Campo Santo, foi tambem uma das creações mais tratadas pela suave idolatria de Fialho, e que elle, antes do apaixonado Albano, se deu a estatuar numa hora de quasi divina loucura!
E não é ainda casualmente que escrevemos da sua idolatria.
A verdade é que o grande Artista foi, alem de tudo, um pagão, embora por fatalidade da sua arte de Extranho, por amor daquella Arte que ainda, de egual maneira, o fez religioso ou, melhor, sectario de toda a Belleza, como jámais conhecemos outro.
É ver as paginas que dedica á Madona do Campo Santo, ao lado de outras, como as que abrem o Paiz das Uvas, e a admiravel Symphonia da Cidade do Vicio!
Em todas ellas, que de adoraveis espectros de faunos e de sylphos:—creações phantasticas[{114}] do genio mysterioso da grande jornada humana immemoravel; e que a elle, ao Poeta, o levam a cantar (a sua obra é ali um hymno)—um quasi amor contra a natureza, de tão extravagante e brutal!