O marmore da Madona não é, effectivamente, um mero acaso da imaginação do contista; bem pelo contrario, estava na logica da sua educação, pois que lhe proveio directamente da mesma causa romantica, que ainda, ao presente, determina o grande numero dos nossos estatuarios.

Ainda mais, o movimento liberal, que, entre nós, começou em 1820, deu á Arte portugueza um motivo de ornamentação tão extranho como detestavel,—a estatuaria rhetorica, se assim podemos defini-la e que, de logo, começou a animar[{118}] os nossos terreiros publicos, onde mais ou menos todas as memorias discursam!

E, a tal ponto a nossa exuberancia de latinos, ligou ao gesto o seu sentido de eternidade que, ainda hoje, reputariamos inverosimil, entre nós, a estatua, á maneira ingleza, como significado de mera presença,—a figura-marco, tal como surde, nas praças de Londres, menos como ficção de vida, do que, pelo contrario, como uma forma abstracta, e a que o Artista procura dar sempre aquella attitude quasi sagrada que, definitivamente, volve em symbolos as memorias!

Comtudo, dado o facto do supremo poder de Fialho, como plastico, força é admittir que bem foi para a memoria de Judith a sua estatua, tal qual elle a trabalhou, como todo o drama de que circumscreveu a sua prodigiosa e raphaelesca figura,[{119}] a cuja decomposição, por fim, assiste, indifferente, depois que ella, já morta, de «face marbreada de roxo» e a «expressão carrancuda» por lhe terem arrancado a mascara,—começa a abater, da sua gracil e suave forma de noiva dos «esponsaes da eternidade...»

Finalmente, o ultimo conto das suas apontadas obras—Os Pobres, comprehende um trecho curto, e, no entretanto, ainda mais notavel que os anteriores.

E tão notavel que só a custo poderemos desarticular essa singularissima peça de Arte, tal a selvageria que dá cohesão á novella, concebida para alem de todas as ficções litterarias!

Trata-se dum casamento de monstros numas ruinas, de «duas virgindades adormecidas»,[{120}] informa o narrador, que num momento vingam o amor abstemio de tantos annos, e celebram, á cumplicidade de uma noite tenebrosa, o seu brutal noivado.

Elle, o macho, é um ser desprezivel, vivendo de restos, especie de cyphotico, aleijado pelo lapis de Velasquez; valente pela sua vida de carreira, ao ar livre; humilde; torto e forte como um azinho; animal corrido de todas as mesas, piolhento que as raparigas enjeitam e escarnecem nos serões:—figura, emfim, perdida no «immenso irradouro» que é, para elle, o mundo.

Segue da Vidigueira para Pedrogão ao acaso do vento, que o esfarrapa, confundindo-o com a urze.

Leva-o o mesmo fim de sempre:—pedir, errar...