Ora duma curiosidade de tal forma animada foi que, naturalmente, sahiu a editar o melhor da sua obra, como tudo o que da sua sympathia pelo raro elle poude discorrer atravez da sua dolorosa fadiga de supersensibilizado![{125}]

Assim, tambem, talvez nenhum dos escriptores do seu tempo conseguisse surprehender a Arte dos etherisados e extranhos cumes donde elle se deu a vertiginá-la.

É ver as paizagens, quasi irreaes do seu lapis de crayonista; as suas figurinhas hystericas de branda genealogia biblica; os seus aleijados; as suas porcellanas, como todo o mundo phantastico da sua inegualavel Arte!

Tambem é de costume, tratando-se de Fialho, escrever do que vulgarmente se considera a sua obra critica.

Não o faremos nós, ainda em attenção ao criterio proprio de que Fialho não foi um critico, mas um impressionista.

E, a proposito, vem recordar o caso de Ramalho que, depois de uma vida longa,[{126}] perscrutando a canseira extranha, talvez menos pelo trabalho de a corrigir que pelo vicio de a desfiar; depois duma fadiga insana por ver do trabalho alheio, no proposito de deixar definitivas as suas notações de pedagogo, sáe, por fim, a desculpar-se, na pagina derradeira do seu papel de critico, denunciando a publico a sua aspiração até ahi occulta,—imagina-se lá de que!—nem mais nem menos do que de poeta lyrico...

E, comtudo, como é de estimar, a nova triste daquelle velho, figura rigida de portuense, com suas tintas de trato inglez, escrevendo á garrocha no couro endurecido de Portugal do tempo, afinal sobre o motivo constante e commum a todos os criticos,—ácerca dos mais versateis casos de gosto burguez!

Porque, fundamentalmente, foi o gosto burguez que elle tratou, embora como uma[{127}] especie de jogador de penna contra os cenaculos havidos então como tradicionaes, e de que um acaso de civilização o fizera transfuga.

Entretanto, é bem de archivar aquella sua pagina de contrição, ainda como desfecho do seu ingrato mister. É que, de facto, elle era um artista, e dahi o ter vindo a publico indultar-se, como em final provação, dos seus cançados propositos criticos, se não legar-nos, á hora da sua agonia litteraria, uma derradeira ironia...

Contrariamente outros dos seus melhores contemporaneos, e entre todos:—Fialho, Eça, Bordallo e ainda Junqueiro (a despeito da sua escravidão politica)—haviam sido mais do que reformadores da Arte,—seus verdadeiros revolucionarios, isto no melhor sentido da desacreditada palavra.