A primeira vez que visitei a residencia de Fialho, que não é já hoje a casita de taipa que os seus construiram, mas uma das melhores da terriola,—foi por uma tarde de agosto, uma daquellas tardes de[{10}] rescaldo que erguem, á volta de nós, serpentes de fogo, e lhe ensinaram, a elle, a sua pintura deslumbrante, á maneira de Rubens, em que a propria côr queima!

Não foi sem um certo alvoroço, confesso, que bati ao portão da antiga casa do Escriptor.

Veio alguem abri-lo, deixando a descoberto, a meio de uma segunda porta fronteira, um homem alto, vestido de negro, de aspecto recolhido, quasi ecclesiastico, e que, num instante, me encarou e desappareceu, abandonando-me no jardim, ao sol, com o meu remorso de indiscreto.

Desapparecera tambem o creado, ou quem quer que fosse, que me tinha introduzido no pateo.

Esperei instantes, e, como não visse alguem, dirigi-me para a entrada da primeira casa, que logo vi ser a cozinha, encarando, pela segunda vez, aquella mesma[{11}] figura quasi sombra, que depois soube que era o irmão de Fialho.

Disse alto o que queria:—falar ao dono da casa e pedir-lhe o favor de me deixar ver a antiga residencia do Artista.

Sahiu a attender-me uma mulher nova, figura doente e franzina, que logo se deu a explicar-me que era ella a actual dona da antiga casa do Escriptor, de quem era parenta, vivendo ali com o marido e seu primo, o irmão de Fialho d'Almeida, que, já ao tempo, mais familiarizado comigo, me fitava serenamente.

Dei-me tambem a vê-lo melhor.

Não me lembro da edade que me disse ter; quarenta e sete annos podia talvez apparentar.

—Que era um temperamento impressionavel, a espaços dado a medos e hysterias, sempre melancholico, informou ainda a sua parenta.[{12}]