—Olha que nos meus ensinamentos não cabe tal ferocidade. Ha coisas que podemos pensar, mas devemos envergonhar-nos de dizer. O pensamento nem sempre joga com a vontade.
Eu sou feroz commigo: tenho-me desejado a morte. Gosei a morte de Edgar, como nunca esperei gosar coisa alguma no mundo. Mas não lha desejei. Ter-lha-ia evitado, se a adivinhasse. Ante o facto consummado o meu espirito exultou. Espirito e corpo, num abraço como jámais se deram, possuiram aquelle lindo morto ou antes a Belleza-morte, no maior elasterio de sensualidade... Mas, vigiar dia a dia o que vae dar-nos a felicidade de morrer, perscrutar-lhe os passos da doença, porventura promover-lha, isso não é digno de ti.
—Ah! minha Peregrina, tu não sabes o que é sentir o amor do homem que detestamos. Olha que é peor do que o contrario, amar a pessoa que nos detesta!
—Mas afasta-te delle. Deixas de ser ministra de Inglaterra, mas és a mulher digna, ainda que vivas como uma rameira, de amores com outras rameiras. Sê a mulher livre; nada ha peor do que a honestidade forçada.
Só a hypocrisia é crime!
Os olhos de turquesa da extrangeira nublaram-se de lagrimas; cahiu a soluçar sobre o peito forte de Peregrina, que a afagava friamente. Bateram á porta.
Era Violet e Salomé.
—Esperae um pouco! disse a Artista.
E, dentro de breve tempo, sahiam as duas a encontrar-se com a antiga condiscipula e Salomé.