E continuou a ler. Passou algumas paginas e de repente disse, fitando-o:

—É uma historia incompleta, pessimamente feita. Não me perturba a idéa de ver praceados os meus delictos. Mas a historia ha de apparecer mais tarde, honestamente documentada e escripta.

Isto, accrescentou, é uma torpeza idiota. Vale, como documento para v., bem mais do que para mim. É um caso simples de chantage a illustrar a vida dum jornalista de terceiras paginas, tambem souteneur e ladrão! Está bem na Folha, enquanto não houver casas de reclusão bastantes...

—Pode V. Ex.ª pensar e dizer o que quizer. O que não quero é demorar-me; preciso de saber se tenho de contratar o manuscripto com o editor...

—Demais, estupido... Então imaginava que eu, de posse desta carta, que é minha, lha daria sob qualquer ameaça ou violencia?

E, destacando-a, atirou-lhe com as tiras sujas do manuscripto, premindo o botão da campainha.

Miraz levantou-se, derrubou um pequeno movel que o separava de Peregrina e cresceu para ella, que amarfanhou a carta, preparando-se para defendê-la, e encarando-o num misto de arrogancia e nojo.

Elle deitou-lhe as mãos aos pulsos e ia a torcer-lhos, quando se abriu a porta e entrou o creado, surpreso.

—Põe lá fóra este velhaco! ordenou Peregrina.

Immediatamente o creado agarrou o chronista pela golla do casaco, arrastando-o ao primeiro patamar e fazendo-o rolar sobre a passadeira até á porta.