Ha pouco me interrogava eu ácerca do teu amor, do nosso amor...
Fui ver-me ao espelho. Encontrei a sombra do que fui na adolescencia.
Reconheci o rapaz de ha dezeseis annos, tratado pelo tempo.
Vi ainda nos olhos a negridão da minha antiga virtude atarantada, imprecisa, a procurar o ceu na continencia, e a sophismar sensualidades na oração; volvi-me ao tempo em que fitava os idolos com os olhos da carne, gosando-os com a alma, lubrica de sonho...
Sou o mesmo mysterio sensual, medroso e desequilibrado:—reflicto, impotente, num mar de desesperos, um mundo de desejos.
Tu soubeste exaltar estes desejos, assaltar-me, de chofre, os nervos, vibratizá-los...
Mas foi então que dei por forças intimas, que augmentam os meus receios. Sei lá se ainda tenho nervos á espreita! Que seria de mim?...
Põe na imaginação braseiros de incendio, brancuras e frios de nevada, asphyxias, essencias de requinte, torturas e suavidades religiosas, harmonias bizarras de harpas, psalterios e violinos, saltos macabros de demonios intimos, visões, o Ceu, o Inferno, e terás uma parte do que me fizeste descobrir áquem de mim, da minha fraqueza.
Eis um pouco do que tecia o extranho do nosso viver...
Mas não poderemos mais encontrar-nos!