E lembrar-me de que fui eu quem o obrigou á unica viagem que fez! Ah! a confusão que sentiu ao entrar em Londres, memorava. E ainda bem, pois que esse aturdimento lhe anesthesiou o desgosto de deixar-me. Sinto no peito o seu abraço de despedida, o ultimo abraço, como elle disse a chorar. Tinha de ser!...
E Helen Green, uma linda adolescente de dezasseis annos, muito enleada em Peregrina:
—Dize-me, mas a morte do Tio Manuel não prejudica a tua estada aqui, não é verdade?
—Não. Sei vagamente que posso emancipar-me. Vou escrever á Tia Helena, a tomar parte no seu lucto—deve estar consternada! e ao procurador a mandar que promova a minha emancipação immediatamente. Depois traçarei, á vontade, o novo plano de vida.
—E a emancipação não te pode ser recusada? inquiriu Helen.
—Pode, mas não o será, porque vou recommendar ao José Lourenço que se entenda com os do conselho da familia, estimulando-os, sem olhar a despesas. Confio absolutamente nelle. É fino, ladino, e... minhoto. E olha que o Codigo de expedientes do Minho, minha querida, vale as leis inglesas, concluiu beijando Helen.
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Passaram mêses sobre a morte de Manuel Pamplona.
Maria Peregrina trabalhava no quarto, segundo o costume áquella hora, quatro da tarde, escrevendo vagarosamente, quando vieram annunciar-lhe a visita dum português. Desceu ao salão, intrigada. Quem seria o português? Teve a maior das surprêsas! A um canto do salão, discreto, attento á decoração das paredes, dando voltas ao chapeu, de roda de palmo, estava o procurador.
—Oh José Lourenço! exclamou Peregrina, como quem chama por uma visão a desapparecer, pois és tu? Em Petersfield! E, vendo-o caminhar para ella: