—Não é isso, advertiu, meigamente, Peregrina, fitando Helen. É que achei em Petersfield a creatura que me deu alentos á exteriorização da minha Arte. Eu tinha latente um amor exotico que não achava apoio algum fóra de mim, e, portanto, não podia vir a publico sobre forma alguma. A Arte é sempre uma expressão de amor. Só produz quem ama. Que esse amor seja bom, ou mau, que importa! O que é preciso é amar.

—Maria Peregrina! arriscou Edgar, sabes que commungo comtigo na admissibilidade do amor extravagante; mas parece-me que este amor deve ser accidental. Ámanhã, quando sahirmos do collegio, iremos todos cahir no amor vulgar; e, a falar verdade, supponho que sobretudo áquelles que têem talento isso convém. Pois não é certo que o amor extravagante nos degenera e gasta?

—Eu te digo, Edgar, ha duas maneiras de considerar a Vida:—vivê-la para o espirito, para a Arte—numa tensão firme de Belleza, e vivê-la como o commum da gente—almoçando, dormindo, trabalhando á hora, realizando num dia trabalho egual ao do dia seguinte, e talhando em vinte e quatro horas o programma, a obra de vinte e quatro ou quarenta e oito annos. Para estes não importa o amor exotico. E convenho que os prejudique se o tentarem... Mas para os outros, os da vida superior, muito longe de lhes prejudicar a obra e o destino, creio que lhes dá em Belleza o que perdem em felicidade. Não leste de certo, o que ha escripto ácerca da cultura dos homens na Grecia? Nietzche, por exemplo, affirma a supremacia do vicio; esclarece—«que as relações eroticas dos homens com os adolescentes foram, duma forma que nem nós chegamos a comprehender, a condição unica, necessaria de toda a educação viril; que todo o idealismo da força na natureza grega se baseou em taes relações; que o commercio sexual regular baixava ao passo que se ia elevando a concepção daquellas relações».

—E parecem-te, perguntou Edgar, certas, essas theses?

—Absolutamente verdadeiras. Condizem com os estudos a que me tenho dado da civilização grega, e de o entender assim a minha concepção nova de Hellenismo, o Poema que estou urdindo e vou publicar.

—Já agora, Peregrina, como teus admiradores, creio que temos direito a saber o entrecho do Poema. A tua Arte é tambem nossa.

—Claro, insistiram os do grupo, que eram o companheiro constante de Edgar, Hugh, um adolescente de olhar quebrado, vago; Violet, uma rapariga tambem inglesa, de olhos e cabellos castanhos, de andar suave, e fala cantada; e Helen, a predilecta de Maria Peregrina.

—Pois vou explicar-vos o Poema, já que desejaes interessar nelle, disse a portuguesa, sentando-se.

Conheceis, de certo, até pelas nossas conversas, a poetisa Sapho. Muito se tem escripto sobre ella. Não ha noticias claras da sua vida e obras. Pertence, principalmente, á lenda. As suas Odes, como cerca de setenta fragmentos reunidos nas Lyrici graeci de Bergk—não são de molde a dar notas seguras acerca do que foi.

Um facto é assente—o valor da sua extrema figura. Qual a reproducção mais legitima segundo a Arte? O Vaticano possue uma estatua de Sapho, sentada num rochedo, meditando; em Napoles ha uma pintura encontrada em Herculanum e um busto em bronze; modernamente occuparam-se della muitos auctores. Tenho reproducções dos trabalhos de Gros, Ramey, Duret, Diebolt, Clesinger, etc. Trataram em opera a tragedia de Sapho—Angier (musica de Gounod); e Salm (musica de Martini). A idéa dos seus presumidos defeitos deu ainda logar a um romance de Daudet—aliás inferior, pois que o artista trata incidentemente de Sapho em duas linhas, dando a Fanny Legrand, a heroina, aquelle nome, porque ella veste uma historia que tanto podia ser a de Sapho, como a de qualquer nevrotica, dada a volupias e violencias. O que é assente, emfim, é que a critica tem oscillado na sua maneira de entender a poetisa, sem ver nella o contraste do espirito grego num largo instincto de generalização e triumpho pelo amor exotico.