Essas mais ou menos mostram o poeta que canta deante do público. Das FOLHAS CAHIDAS ninguem tal dirá, ou bem pouco intende de stylos e modos de cantar.
Não sei se são bons ou maus estes versos; sei que gósto mais d’elles do que de nenhuns outros que fizesse. Porque? É impossivel dizê-lo, mas é verdade. E como nada são por elle nem para elle, é provavel que o público sinta bem diversamente do auctor. Que importa?
Apezar de sempre se dizer e escrever ha cem mil annos o contrário, parece-me que o melhor e mais recto juiz que póde ter um escriptor, é elle proprio, quando o não cega o amor proprio. E eu sei que tenho os olhos abertos, aomenos agora.
Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda sem ser Tasso, a queimar os seus versos, que são seus filhos; mas o sentimento paterno não impede de ver os defeitos das crianças.
Emfim, eu não queimo estes. Consagrei-os ignoto deo. E o deus que os inspirou que os anniquille se quizer: não me julgo com direito de o fazer eu.
Ainda assim, no ignoto deo não imaginem alguma divindade meia-velada com cendal transparente, que o devoto está morrendo que lhe caia paraque todos a vejam bem clara. O meu deus desconhecido é realmente aquelle mysterioso, occulto e não-definido sentimento d’alma que a leva ás aspirações de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta.
Imaginação que porventura se não realisa nunca. E d’ahi quem sabe? A culpa é talvez da palavra, que é abstracta demais. Saude, riqueza, miseria, pobreza, e ainda coisas mais materiaes, como o frio e o calor, não são senão estados comparativos, approximativos. Ao infinito não se chega, porque deixava de o ser em se chegando a elle.
Logo o poeta é louco, porque aspira sempre ao impossivel. Não sei. Essa é uma disputação mais longa.
Mas sei que as presentes FOLHAS CAHIDAS representam o estado d’alma do poeta nas variadas, incertas e vacillantes oscillações do espirito que, tendendo ao seu fim unico, a posse do IDEAL, ora pensa tê-lo alcançado, ora estar a ponto de chegar a elle—ora ri amargamente porque reconhece o seu ingano—ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade van.
Deixae-o passar, gente do mundo, devotos do podêr, da riqueza, do mando, ou da glória. Elle não intende bem d’isso, e vós não intendeis nada d’elle.