(O converso faz venia e vai-se.)

SCENA IV

*Telmo* so. Virou-se-me a alma toda com isto: não sou ja o mesmo homem. Tinha um presentimento do que havia de acontecer… parecia-me que não podia deixar de succeder… e cuidei que o desejava em quanto não veiu.—Veiu, e fiquei mais aterrado, mais confuso que ninguem!—Meu honrado amo, o filho do meu nobre senhor está vivo… o filho que eu criei n'estes braços… vou saber novas certas d'elle—no fim de vinte annos de o julgarem todos perdido—e eu, eu que sempre esperei, que sempre suspirei pela sua vinda…—era um milagre que eu esperava sem o crer! Eu agora tremo… É que o amor d'est'outra filha, d'esta última filha, é maior, e venceu… venceu, apagou o outro. Perdoe-me Deus, se é peccado. Mas que peccado hade haver com aquelle anjo?—Se me ella viverá, se escapará d'esta crise terrivel!—Meu Deus, meu Deus! (ajoelha) levae o velho que já não presta para nada, levae-o por quem sois! (Apparece o romeiro á porta da esquerda, e vem lentamente approximando-se de Telmo que não dá por elle.) Contentae-vos com este pobre sacrificio da minha vida, Senhor, e não me tomeis dos braços o innocentinho que eu criei para vós, Senhor, para vós… mas ainda não, não m'o leveis ainda. Já padeceu muito, já traspassaram bastantes dores aquella alma: esperae-lhe com a da morte algum tempo!

SCENA V

TELMO e o ROMEIRO

*Romeiro*. Que não oiça Deus o teu rôgo!

*Telmo*, sobresaltado. Que voz!—Ah! é o romeiro.—Que me não oiça
Deus! porquê?

*Romeiro*. Não pedias tu por teu desgraçado amo, pelo Filho que criáste?

*Telmo*, áparte. Já não sei pedir senão pela outra. (Alto) E que pedisse por elle, ou por outrem, porque me não hade ouvir Deus, se lhe peço a vida de um innocente?

*Romeiro*. E quem te disse que elle o era?