*Côro*. Si iniquitates observaveris, Domine; Domine, quis sustinebit?

*Prior*, tomando os escapularios de cima do altar. Manuel de Sousa-Coutinho, irmão Luiz de Sousa, pois em tudo quizestes despir o homem velho, abandonando tambem ao mundo o nome que n'elle tinheis!—Soror Magdalena! Vós ambos, que ja fostes nobres senhores no mundo, e aqui estais prostrados no pó da terra, n'esse humilde hábito de pobres noviços; que deixastes tudo, até vos deixar a vós mesmos… filhos de Jesus Christo, e agora de nosso padre San'Domingos, recebei com este bento escapulario…

SCENA XI

O PRIOR DE BEMFICA, o ARCEBISPO, MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, etc. MARIA, que entra precipitadamente pela egreja em estado de completa alienação; traz umas roupas brancas, desalinhadas e cahidas, os cabellos soltos, o rosto macerado, mas inflammado com as rosetas ethicas, os olhos desvairados; pára um momento, reconhece os pais e vai direita a elles.—Espanto geral: a cerimonia interrômpe-se.

*Maria*. Meu pae, meu pae, minha mãe! levantae-vos, vinde. (Toma-os pelas mãos; elles obedecem machinalmente, veem ao meio da scena: confusão geral.)

*Magdalena*. Maria! minha filha!

*Manuel*. Filha, filha!… Oh, minha filha!… (Abraçam-se ambos n'ella.)

*Maria*, separando-se com elles da outra gente, e trazendo-os para a bôcca da scena. Esperae: aqui não morre ninguem sem mim. Que quereis fazer? Que cerimonias são éstas? Que Deus é esse que está n'esse altar, e quer roubar o pae e a mãe a sua filha?—(Para os circumstantes) Vós quem sois, espectros fataes?… quereis-m'os tirar dos meus braços?… Esta é a minha mãe, este é o meu pae… Que me importa a mim com o outro? Que morrêsse ou não, que esteja com os mortos ou com os vivos—que se fique na cova ou que resuscite agora para me mattar?… Matte-me, matte-me, se quer, mas deixe-me este pae, ésta mãe, que são meus.—Não ha mais do que vir ao meio de uma familia e dizer: «Vós não sois marido e mulher?… e ésta filha do vosso amor, ésta filha criada ao collo de tantas meiguices, de tanta ternura, ésta filha é…»—Mãe, mãe, eu bem o sabia… nunca t'o disse, mas sabia-o: tinha-m'o ditto aquelle anjo terrivel que me apparecia todas as noites para me não deixar dormir… aquelle anjo que descia com uma espada de chammas na mão, e a atravessava entre mim e ti, que me arrancava dos teus braços quando eu adormecia n'elles… que me fazia chorar quando meu pae ia beijar-me no teu collo.—Mãe, mãe, tu não hasde morrer sem mim… Pae, dá ca um panno da tua mortalha… dá ca, eu quero morrer antes que elle venha: (incolhendo-se no hábito do pae) quero-me esconder aqui, antes que venha esse homem do outro mundo dizer-me na minha cara e na tua—aqui deante de toda ésta gente: «Essa filha é a filha do crime e do peccado!…» Não sou; dize, meu pae, não sou… dize a essa gente toda, dize que não sou. (Vai para Magdalena) Pobre mãe! tu não podes… coitada!… não tens ánimo…—nunca mentiste?… Pois mente agora para salvar a honra de tua filha, para que lhe não tirem o nome de seu pae.

*Magdalena*. Misericordia, meu Deus!

*Maria*. Não queres? Tu tambem não, pae?—Não querem. E eu heide morrer assim… e elle vem ahi…