Devo ao seu favor, não so o terem adornado a minha miragaia com as suas graciosas gravuras em madeira que todos teem admirado, mas o permittirem que fizesse com ellas ésta pequena edição em separado com que quero brindar alguns amigos apaixonados, como eu, de nossas antigualhas populares.

É uma folha avulsa do meu romanceiro geral cujo primeiro volume ja está em podêr do público; e lá será reposta em tempo e logar conveniente.

Foi das primeiras coisas d'este genero em que trabalhei; e é a mais antiga reminiscencia de poesia popular que me ficou da infancia, porque eu abri os olhos á primeira luz da razão nos proprios sitios em que se passam as principaes scenas d'este romance. Dos cinco aos dez annos de edade vivi com meus paes n'uma pequena quinta, chamada o «Castello », que tinhamos áquem Doiro, e que se dizia tirar esse nome da vizinhança das ruinas do antigo castello mourisco que alli jazem perto. Com os olhos tapados eu iria ainda hoje achar todos esses sitios marcados pela tradição popular. Muita vez brinquei na fonte do rei Ramiro,--cuja água é deliciosa com effeito; e tenho idêa de me ter custado caro, outra vez, o imitar, com uma gaita da feira de San'Miguel, os toques da bozina de S. M. Leoneza, impoleirado eu, como elle, n'um resto de muralha velha do castello d'elrei Alboazar: o que meu pae desapprovou com tam significante energia, que ainda hoje me lembra tambem.

Assim ólho para ésta pobre Miragaia como para um brinco meu de criança que me apparecesse agora; e quero-lhe--que mal ha n'isso?--quero-lhe como a tal. Não a julguem tambem por mais, que o não vale.

Lisboa 24 de Janeiro 1844.

MIRAGAIA

I

Noite escura tam formosa,
Linda noite sem luar,
As tuas estrellas de oiro
Quem n'as poderá contar!
Como as folhinhas do bosque,
Como as areias do mar...
Em tantas lettras se escreve
O que Deus mandou guardar.
Mas guai do homem que se fia
N'essas lettras decifrar!
Que a ler no livro de Deus
Nem anjo póde atinar.
Bem ledo está Dom Ramiro
Com sua dama a folgar;
Um perro bruxo judio
Foi causa de elle a roubar:
Disse-lhe que pelos astros
Bem lhe podia affirmar
Que Zahara, a flor da belleza,
Lhe devia de tocar.
E o rei veio de cilada
D'além do Doiro passar,
E furtou a linda moira,
A irman d'Alboazar.
A Milhor, que é terra sua
E está á beira do mar,
Se acolheu com sua dama,
Nem de mais sabe cuidar.
Chora a triste da rainha,
Não se póde consolar:
Deixá-la por [~u]a moira
Deixá-la com tal dezar!
E a noite é escura cerrada,
Noite negra sem luar,
Sosinha no seu balcão
Assim se estava a queixar:
--«Rei Ramiro, rei Ramiro,
Rei de muito mau pezar,
Em que te errei d'alma ou corpo,
Que fiz para tal penar?
«Diz que é formosa essa moira,
Que te soube infeitiçar...
Mas tu dizias-me d'antes
Que eu era bella sem par.
«Que é môça, na flor da vida...
Eu, se ainda bem sei contar,
Ha tres que tinha vinte annos,
Fi-los depois de casar.
«Diz que tem os olhos pretos.
D'estes que sabem mandar...
Os meus são azues, coitados!
Não sabem senão chorar.
«Zahara, que é flor, lhe chamam
A mim, Gaia... Que acertar!
Eu fiquei sem alegria,
A flor quem lh'a hade voltar?
«Oh! quem podéra ser homem,
Vestir armas, cavalgar,
Que eu me fôra ja direita
A esse moiro Alboazar...»
Palavras não eram dittas,
Os olhos foi a abaixar,
Muitos vultos acercados
Ao palacio viu estar.
--«Peronella, Peronella,
Criada do meu mandar,
Que vultos serão aquelles
Que por alli vejo andar?»
Peronella não responde:
Que havia de ella fallar?
Riccas peitas de oiro e joias
A tinham feito callar.
A rainha que se erguia
Por sua gente a bradar,
Sette moiros cavalleiros
A foram logo cercar;
Soltam prégas de um turbante,
A bôcca lhe vão tapar;
Tres a tomaram nos braços...
Nem mais um ai pôde dar.
Criados da sua casa,
Nenhum veio a seu chamar;
Ou peitados ou captivos
Não n'a podem resgatar.
São sette os moiros que entraram,
Sette os estão a aguardar;
Não fallam nem uns nem outros...
E prestes, a cavalgar!
So um, que de arção a toma,
Parece aos outros mandar...
Junctos junctos, certos certos,
Galopa a bom galopar!
Toda a noite, toda a noite
Vão correndo sem cessar;
Pelos montes trote largo,
Por valles a desfilar.
Nos ribeiros--peito n'agua,
Chape, chape, a vadear!
Nas defesas dos vallados
Up! salto--e a galgar!
Vai o dia alvorecendo,
Estão á beira do mar.
Que rio é este tam fundo
Que n'elle vem desaguar?
A bôcca ja tinha livre,
Mas não acerta a fallar
A pasmada da rainha...
Cuida ainda de sonhar!
--«Rio Doiro, rio Doiro,
Rio de mau navegar,
Dize-me, essas tuas aguas
Aonde as foste buscar?
«Dir-te-hei a perola fina
Aonde eu a fui roubar.
Ribeiros correm ao rio,
O rio corre a la mar,
«Quem me roubou minha joia,
Sua joia lhe fui roubar.»
O moiro que assim cantava,
Gaia que o estava a mirar...
Quanto o mais mirares, Gaia,
Mais formoso o hasde achar.
--«Quantos barcos alli véem!»
--«Barcos que nos véem buscar.»
--«Que lindo castello aquelle!»
--«É o do moiro Alboazar.»