Saliente; porque as figuras de seus quadros tem um ar de relêvo, que engana. É necessaria metonymia, de que uso muitas vezes para caracterizar os pintores, segundo suas mais distinctas qualidades.

«Ja de accurvados reis não brilha o fasto.»

O simples nome de Roma basta para fazer nascer uma infinidade de ideias grandes e de magestade. Todos os pensamentos sublimes, que a imaginação póde crear, todas as sérias reflexões, que póde suscitar a razão, todas as memorias augustas, que a virtude e a humanidade podem fazer nascer, occorrem e borbulham associadamente na alma do homem pensador com a simples ideia de Roma. O exfôrço dos Horacios, a castidade das Lucrecias, a integridade dos Brutos e Catões, o patriotismo dos Fabios e Scevolas, a magnanimidade e valor dos Scipiões, a eloquencia dos Ciceros, o saber dos Plinios, a liberalidade dos Augustos, a grandeza dos Trajannos, a humanidade dos Titos, tudo se recorda com a memoria illustre da cidade por excellencia.

Imagine-se um homem cheio de toda a magnificencia destas ideias, possuido de respeito e veneração, ao entrar em Roma.—Ruinas, sepulcros, templos derrocados, estradas solitarias, ruas desertas... são os miseraveis objectos, que lhe ferem os olhos, mui de longe preparados para admirar a senhora do universo. De espaço a espaço descobre (é verdade) um templo magnifico, um grande palacio; mas breve se desvanece este vislumbre de grandeza, e subito se esvai a nascente esperança de encontrar a Roma de Augusto. Estes palacios, estes templos, que se elevam do meio das choupanas (habitação da indigencia e da fome) carregados d’ornatos, de sobejo embellezados, serão acaso aquelles esmeros de architetura grande e magestosa, suberba e varonil dos edificios Latinos? Poderá algum d’elles similhar-se ao Fóro, ao Palacio, ao Amphitheatro? Descubrir-se-ha n’alguma d’estas modernas praças o menor vestigio dos Rostros? O Capitolio, o terrivel, o venerando Capitolio, onde se julgava dos destinos das nações, onde os reis curvavam os sceptros, e depunham os diademas; d’onde sahiam os irrevogaveis e tremendos decretos, que dispunham da sorte dos povos, e legislavam ao universo, que é feito d’elle?—O solicito viajante ainda o descobre; o seu cicerone (guia) ainda lhe mostra o logar d’elle.—E será este?—Differente estrada conduz ao cimo do monte; o palacio do senador, alguns restos de quebradas estatuas, de desfigurados relevos são todas as riquezas, todos os tropheos, todos os despojos, que ornam o antigo alcaçar do mundo.

Confuso, humilhado, o viajante não se atreve ja a encarar nenhum edificio.—«Os habitantes ao menos (diz elle) talvez conservem alguma cousa ainda de Romanos. Tantas virtudes, tanta grandeza não podiam extinguir-se de todo.»—Um bando de miseraveis, uma plebe indigente, vil e sem costumes, são os successores do povo rei; uma côrte effeminada, e entregue aos deleites do ocio occupa o logar dos Brutos e Catões; declamadores sem gôsto, com affectadas e guindadas phrases (que ou não entendem ou não crem) fazem retenir aquelle mesmo ar, que ouviu os eloquentes e numerosos sons de Cicero e Marco Antonio; assucarados trovadores infectam com os seus—concetti—a degradada lyra de Virgilio e Horacio; os Scipiões, os Emilios, os grandes generaes, as invenciveis tropas da triumphante republica são substituidas por um bando de assoldados Suissos, cujas grandes proesas e valor, cujos guerreiros exforços são o fazer a guarda do papa. Em vez do augusto e venerando senado, um ajuntamento d’homens ambiciosos, insaciaveis d’ouro, regem despoticamente; não os direitos das nações, e deveres dos reis e povos pelas invariaveis leis da justiça, como os antigos conscriptos; mas o corpo invalido da igreja por elles arruinada e depravada, levando simplesmente o fito em pescar para a barca do humilde S. Pedro as riquezas das nações com o sagrado anzol das indulgencias, reliquias e breves.—«Roma! oh Roma! (exclamará o contristado viajante) tu ja não existes; a tua liberdade expirou em Catão, e tu com ella! A liberdade te conservava as virtudes, que, mais que tuas façanhas, te constituiram no imperio do orbe. Perdeste-a; e desde então caminhaste sempre com gigantescos passos ao abysmo de miseria e vileza, em que jazes sepultada para eterno exemplo do universo.

E com effeito, tal é a sorte de quasi todas as nações! Florecem, reinam em quanto a liberdade, ou a larva della subsiste; apenas se eleva a tyrannia, cai de rôjo com a liberdade o amor das virtudes; a servidão embrutece o homem; a sociedade se muda em um rebanho de escravos; e a miseria succede á opulencia. Assim cahiu Roma, assim Sparta, assim Hollanda, assim tantas outras. Que exemplos para os tyrannos, e que terrivel escarmento para os povos! Miseraveis despotas, embreve estendereis o sceptro de ferro sobre montões de ruinas. Os Vandalos, os Godos, os Arabes não se acabaram ainda; e vós os chamais com tanta ancia![15]

NOTAS DE RODAPÉ:

[15] É facil de vêr que esta nota foi escripta antes do dia 24 d’Agosto. Felizmente ja se podem tratar estes assumptos com menos atrabilis.

Notas ao canto terceiro