(Bocage)
se ornavam com todo o esplendor das sciencias e artes. A mesma Theologia tam sêca, e enfadonha nas mãos de Santo Thomaz, tam immoral nas de Mollina, e Sanches, muda de fórma, toma nova essencia, e na milagrosa penna de Chateaubriand surge com uma belleza e magestade, que jamais puderam dar-lhe o douto Agustinho, o eloquente Origenes. Com bem justiça, em quanto a mim, se podem a si proprios applicar os Francezes, a respeito das outras nações, aquella sentença de Seneca: Multum egerunt qui ante nos fuerunt, sed non peragerunt.[26] Nesta epocha brilhante e memoranda nos fastos da humanidade, das sciencias e das artes, a pintura renova em París os seculos de Augusto, de Leão X e de Luiz XIV. Os generaes victoriosos traziam de toda a parte os monumentos mais preciosos das boas-artes. O Vaticano, o Belveder, o Capitolio, Roma, toda a Italia foi exhaurida, e suas riquezas de sculptura e pintura transportadas á nova capital do mundo. Então appareceram em França David, Girodet, e muitos outros, que vão parelhas com os mais famosos Italianos, se em parte os não excederam. Lavater no seu ingenhoso livro das physionomias não se attreveu a caracterisar os Francezes. Seus genios e maneiras tam incertos e incapazes de classificação, como sua variada phisionomia, impedem affixar-lhes com exactidão a caracteristica; e philologos por isso houve, que não quizeram considerar na Franceza uma eschola; porem esta assersão é sem critica, e pouco seguida. Pruneti no seu Ensaio Pictorico accusa a eschola Franceza de mau colorido, e ignorancia do antigo. Eu, sem me attrever a contrastar este parecer, julgo que tal imputação não pode ter lugar na moderna eschola franceza; mas somente se deve referir á antiga. Pruneti todavia não conheceu a eschola de David; mas devia conhece-la seu traductor Taborda; devêra estuda-la para emendar o seu original, e exceder assim a mediocridade d’um traductor servil, accrescentando-lhe novas ideias. O grande genero francez é geralmente o historico. O chefe desta eschola, querem uns que seja Roux, ou Rosso, outros que Leonardo da Vinci: Pruneti assevera que fôra Primaticio Bolognese e o faz alumno da eschola Romana. Eu o classifiquei na Lombarda; mas confesso que me enganei; porque o seu pintar, verdadeira norma, é mais Romano, que Lombardo.
Seculo XVI
Vovet n. 1590, m. 1649. Teve um desenho altivo, e um pincel vigoroso; mas imitou depois todas as boas e más qualidades de Mig. Ang. de Caravaggio.
Nicolau Poussin: Pruneti o faz nascido em 1594; mas Voltaire (Siècle de Louis XIV) assevera esta data em 1599. A boa critica decide por este, como nacional, e tam instruido nos successos d’um tempo, cuja historia nos deu. O mesmo Voltaire diz que Poussin era chamado o pintor das pessoas de spirito, e acresenta que tambem das de gôsto se podia dizer. Soube bem o antigo e o desenho; mas o gôsto Romano lhe deu um colorido sombrio. Sua philosophia (diz o grande escriptor) o fez superior ás intrigas de Le Brun, e morreu pobre mas contente em 1665.
Pedro Valentin de Colonier n. 1600, m. 1632; imitou Poussin; teve um colorido harmonioso, boa ordem nas figuras, mas pouca correcção no desenho.
Jacques Blanchard foi imitador feliz das bellezas de Ticiano. Nasc. 1600, m. 1638.
Lesueur n. 1617, m. 1655. Seu ingenho é sublime e elevado, seu gôsto de roupagens magnifico. É um dos primeiros pintores da antiga eschola Franceza.
Pedro Mignard n. 1610, m. 1638. O estudo, e imitação de Raphael e Ticiano o fizeram algum tempo rival de Le Brun; mas a posteridade imparcial o extremou bem.
Carlos Le Brun n. 1619, m. 1690. Sua composição, dignidade de exprimir, e fidelidade de costumes se conhece principalmente pelas batalhas de Alexandre, que Voltaire julga superiores ás de Paulo Veronese; mas apezar do meu respeito a um tal historiador, e philologo, creio que nisto se engana, bem como no elogio do seu colorido, que todos taxam de menos correcto.