EPOCHA IV
(Seculos XVIII e XIX)

A longa paz do reinado de D. João V, o commercio das colonias Americanas, as riquezas e abundancia consecutivas fizeram reviver as artes e sobretudo a pintura e architectura. Começou-se Mafra pela mesma razão, que se começara Belem: a Italia recebeu de novo muitos alumnos portuguezes; e como Luiz XIV fizera em Roma, fez João V, instituindo n’aquella cidade uma academia de pintura. Francisco Vieira Lusitano, Ignacio d’Oliveira, e muitos outros foram o digno fructo dos cuidados do monarcha, merecedor por seus bons desejos d’um seculo mais philosopho, e d’uma côrte menos hypocrita. N’este estado de cousas começou a reinar D. José, e com elle o marquez de Pombal: tudo mudou de face; cahiu o colosso jesuitico, o reino d’Aristoteles e a barbaridade Thomistica[30]; brilhou a pintura como a poesia, e as outras artes e sciencias. O governo doce e moderado de Maria I acabou de aperfeiçoar o que principiara e adiantara D. José, e o marquez de Pombal, que na universidade de Coimbra,[31] em Mafra, no collegio dos nobres, e outras partes tinham instituido aulas de desenho e pintura. D. Maria fundou a academia do nu; em seu tempo[32] se instituiu a de desenho do Porto. A nenhum bom portuguez devem esquecer os vigilantes cuidados do intendente Manique, a quem a pintura, a esculptura e mais artes devem tanto em Portugal. Esta fertil epocha produziu um Pedro Alexandrino, Vieira Lusitano, Teixeira Barreto, Vieira Portuense, Sequeira, e muitos outros, cujos nomes callo, mas bem conhecidos pelas suas bellas producções. A verdade, a expressão, o bello natural são os caracteres dominantes nestes tempos.

PINTORES PORTUGUEZES DA I EPOCHA
(Seculo XI até XIV)

Alvaro de Pedro viveu e pintou na Italia pelos annos de 1450. Nada mais se sabe; mercês á incuria de nossos avoengos. Oxalá que este miseravel e vergonhoso exemplo sirva de estimulo a netos, que possam melhor que eu, transmittir á posteridade a memoria illustre de nossos coévos. Noto de passagem que o traductor da oração de Belori assevera, com uma intrepidez que me espanta, serem de Gonsalo Nuno, ou Nuno Gonsalves as pinturas da capella de S. Vicente na sé de Lisboa. O mesmo dizem Francisco de Hollanda e Bermudes.

João Annes. Deixadas conjecturas, nada mais sabemos deste pintor, senão que vivia pelos annos de 1459 por uma carta de privilegio dada por D. Affonso V. (Vide Taborda, Cenaculo, etc.)

Vasco dito o grande (Gran Vasco). Sabemos por documentos d’aquelle tempo, que vivia ainda nos fins do XV seculo. Seu stylo do antigo modo Florentino faz julgar aos sabedores, que estudára com Pedro Perugino. Desenho, ainda que rude, exacto, attitudes energicas, grande conhecimento de architectura, bellas paizagens são os caracteres deste insigne mestre, que fertil, e assiduo no trabalho enriqueceu todo o reino com seus primores. Muitos templos de Lisboa, o da Ordem de Christo em Thomar, e outros o attestam. Foi pintor de D. Affonso V, e segundo o traductor portuguez de Belori, tambem de D. Manoel. Um periodico de Lisboa (que infelizmente se intitula Mnemosine Lusitana) quer que o melhor quadro de Vasco seja o da paixão de Christo no horto (em Thomar): pintura (diz elle) porque um Inglez philologo, dava 6:000 cruzados, e uma boa copia. Desejava de todo o meu coração, que o redactor, ou redactores tivessem, ao menos nisto, razão: em quanto a mim o amor da patria m’o faz crer facilmente.

PINTORES PORTUGUEZES DA II EPOCHA
(Seculo XV e XVI)

Gonsalo Gomes, de quem nada mais se sabe senão que vivia nos fins do seculo XV, foi pintor de D. Manoel: e a estimação, que este sabio rei d’elle fez, é o unico, mas relevante testemunho do seu merecimento.

Na chronica de D. Manoel é chamado Duarte Darmas grande pintor, e como tal enviado por el-rei a debuxar as entradas de Azamor, Salé, etc. (Vide Damião de Goes, Chron. de D. Man., part. II, cap. 27, pag. 208, ediç. de 1819).

Firmado no proprio testemunho do auctor assevera (e não sei se com razão) Vicente Carducho, e com elle Taborda, que o nosso historiador Resende fôra tambem grande pintor. Não sei se a singeleza d’aquelles tempos é bastante para crermos um homem no artigo dos seus louvores.