Deixei-lhe com mais seguridade o titulo de xácara que trazem muitos outros de nossos romances populares, porque effectivamente creio que quadra mais aos d’esta especie de narrativa que é feita dramaticamente pelos dizeres de um e outro dos seus personagens, emquanto o poeta pouco ou nada diz epicamente elle mesmo.
Nós temos, se me não ingano, no genero narrativo popular as tres especies, romance, xácara, soláo: no romance predomina a fórma epica, conta e canta principalmente o poeta; na xácara prevalece a fórma dramatica, diz o poeta pouco, ás vezes nada—fallam os seus personagens muito: o soláo é mais plangente e mais lyrico, lamenta mais do que reconta o facto, tem menos dialogo e mais carpir: ás vezes, como no soláo da Ama em Bernardim-Ribeiro, não ha senão o lamento de uma só pessoa que vai alludindo a certos successos, mas que os não conta.
Apezar do que levo ditto no princípio d’estas linhas, como não posso negar que ha bastante do meu cimento no ligar e assentar das pedras velhas, e ellas eram tam poucas e tam sôltas, escrupulisei de pôr ésta peça no II livro do ROMANCEIRO paraque me não accusassem de macaquear as imposturas de Macpherson ou de Fr. Bernardo de Brito.
A anecdota, que eu deixei religiosamente como a refere o povo, parece dever ter sido algum facto que realmente acontecesse:—como, quando e aonde? Não pude encontrar vestigio. É o que diz o pobre do conde, scismando:
O chapim aqui o tenho,
O chapim bem n’o topei:
mas cujo é, e a que pé serve, só se voltar do outro mundo o dito rei para no-lo dizer.
Lisboa, 27 de Março de 1843.
No appendice ao II livro do ROMANCEIRO achará o leitor a versão ingleza d’esta xácara, publicada pelo Sr. Adamson na sua LUSITANIA ILLUSTRADA, part. II.