O Sr. Herculano, bibliothecario da Real bibliotheca da Ajuda, com cuja provada amisade me honro tanto quanto a nação deve gloriar-se de seus escriptos, tambem me tem ajudado não pouco com os preciosos achados que, no seu incessante lavrar das minas archeologicas, tem incontrado e repartido commigo. Por seu favor tornei a examinar, no Ms. original, o famoso cancioneiro ditto do Collegio dos Nobres, hoje na bibliotheca Real; e com éstas e com as collecções allemans e francezas, e creio que com quasi todas as dos povos do Norte, tenho collacionado as nossas rhapsodias populares, muitas das quaes, por este modo vim a conhecer visivelmente, que tinham a mesma commum origem. Os eruditos trabalhos de Mr. Raynouard sôbre a lingua romance ou provençal me allumiaram muita vez n’esta obscura e inredada tarefa.

A interessante e conscienciosa memoria do Dr. Bellermann impressa em Berlim em 1840, e o conhecimento de que a sociedade alleman para a reimpressão dos livros raros estava publicando em portuguez o nosso Cancioneiro de Rezende; o interêsse geral que hoje se tem desenvolvido no mundo pela litteratura popular das nações modernas e especialmente das nossas peninsulares—interêsse que, porfim e emfim, hade vir a reflectir em nós tambem, e despertar-nos para abrir os olhos ás riquezas proprias, ainda que não seja senão pelas ver tam prezadas de extranhos—os conselhos e rogos do meu particular amigo e quasi compatriota nosso, o sr. João Adamson, tudo isto me fez alargar mais o plano da minha obra e collecção.

Resolvi, sob nova denominação de Romanceiro e Cancioneiro-Geral[1], reunir todos os documentos que eu podesse para a historia da nossa poesia popular, desde onde memorias ou conjecturas ha, até á epocha actual, acompanhando-os de explicações e glossas, que vão servindo de nexo, que sejam como a liaça, o nastro que áte estes pergaminhos.

Quem não tem olhado senão á superficie da nossa litteratura, quem cego do brilho classico das nossas tantas epopeas, seduzido pela flauta magica dos nossos bucolicos, enthusiasmado pelo estro tam ricco e variado dos innumeraveis poetas que, nos quartetos e tercetos sicilianos da elegia, da epistola e do soneto, rivalizam, e tantas vezes luctam de vantagem, com o proprio Petrarcha: quem, sôbre tudo—porque n’esse genero é a musa portugueza superior á de todas as linguas vivas—adora em Sá-de-Miranda, Ferreira, Diniz, Garção e Filinto o genio redivivo de Horacio e de Pindaro—não crê, não suspeita, hade ficar maravilhado de ouvir dizer, como eu quero dizer e provar no presente trabalho, que ao pé, por baixo d’essa aristocracia de poetas, que nem a viam talvez, andava, cantava, e nem com o desprêzo morria, outra litteratura que era a verdadeira nacional, a popular, a vencida, a tyrannizada por esses invasores gregos e romanos, e que a todos os esforços d’elles para lhe oblitterarem e confundirem o character primitivo, resistia na servidão com aquella fôrça de inercia com que uma raça vencida, com que a população aborigine de um paiz resiste a igual impenho de seus conquistadores que lhe usurparam a dominação, e que, seculos e seculos depois, quando esses já não são, ou não cuidam ser, senão uma casta privilegiada e patriciana, reagem fortes aquell’outros com o que seus proprios senhores lhes insinaram, regenerados por seu longo martyrio, e extirpam muitas vezes, mas geralmente se contentam de avassallar, os seus antigos oppressores.

É a historia de todos os povos, e por consequencia de todas as litteraturas.

É a historia litteraria de Portugal no segundo quartel d’este seculo: é o que foi ésta reacção vulgarmente chamada romantica, mas que não fez mais do que trazer a renascença da poesia nacional e popular. Nenhuma coisa póde ser nacional se não é popular.

Aqui está o porquê, o como e o paraquê fiz a collecção de que este volume é a primeira parte, ou mais exactamente a introducção, e que apenas contêm o que eu, á mingua de melhor nome, designarei com o titulo de Romances da renascença: são os que resuscitei e como que traduzi das quasi apagadas e mutiladas inscripções que desinterrei da memoria dos povos.

Os textos originaes d’estes, restituidos quanto é possivel, os de muitos outros que appareceram menos imperfeitos na mesma excavação, muitissimos que se têem achado em livros e papeis desprezados hoje, e em collecções Mss., estão promptos, classificados, annotados, e sahirão em seguimento d’este volume, apenas o permittam as difficuldades, sempre recrescentes em Portugal, de se publicar qualquer coisa.

Eu tenho posto termo, ou pelo menos suspensão indefinida a toda a occupação litteraria propriamente ditta, para absolutamente me dedicar, em quanto posso e valho, á conclusão de um trabalho antigo, mas interrompido muitas vezes, que agora jurei acabar; são Vinte annos da historia de Portugal, periodo que começa em 1820 e chega aos dias de hoje, mas que não sei se ja anda mais inredado e confuso do que o dos mais antigos e obscuros seculos da monarchia.

Espero começar a publicá-lo no fim d’este anno[2]; e nenhum tempo ou logar me sobrará portanto para mais nada. O Romanceiro porêm e Fr. Luiz de Sousa estão promptos a entrar no prelo e, quanto é por minha parte, não farão esperar o público.