Dona Guimar—ou Dona Agueda—de Mexia, como lhe chama a licção do Alemtejo, é um interessante romancinho que apparece na tradição d’aquella provincia e na de Extremadura. Por ambas se apurou o texto que aqui dou.

Nem por outras provincias nossas, nem pelas collecções castelhanas ha outro vestigio d’elle, que eu saiba.

Não é muito antigo o stylo. Mas o facto celebrado é o de uma morte apparente com a qual parece se julgou dissolvido o matrimonio: e d’isto houve exemplos em tempos remotos em que tinham por certa a morte, e por verdadeira resurreição o tornar a si o supposto defuncto.

Seja porêm qual for a data d’esta composição, ha coplas d’ella que vão de par com o mais bello e original da poesia mais primitiva. Notarei especialmente a volta de Dom João á sua terra n’aquella manhan de maio, que os passarinhos cantavam, os sinos tangiam e o rir da natureza se misturava com o chorar dos homens. Tambem não creio que haja nada mais bello que estoutros versos quanto a morta vai tornando a si e pondo olhos no amante:

Volta a vida que se fôra

Com todo o amor que não se ia.