Bernardim-Ribeiro foi natural da villa do Torrão no Alemtejo, vivia por fins do XIV, principios do XV seculo; era moço fidalgo d’elrei Dom Manuel e servia no paço, onde a belleza e perfeições da infanta Dona Beatriz lhe inspiraram uma paixão de verdadeiro ‘Macias namorado.’ Ainda não estava tam longe o tempo em que princezas e rainhas ouviam sem infado e acceitavam sem desaire as homenagens dos trovadores. Bernardim era moço, talvez bem parecido, discreto decerto: ha toda a razão de crer que foi ouvido com sympathia e indulgencia. Toda a sua felicidade ficou por aqui, segundo elle diz:
‘Que para mais esperar
Nunca me deram logar.’
E ésta deve de ser a verdade; ou elle, de fino amante, no’la occultou: em qualquer dos casos devemos crê-lo sôbre sua palavra.
A infanta casou por procuração com o duque Carlos de Saboia, em Lisboa nos paços da Ribeira, a 7 de Abril de 1520[112]; e em Agosto seguinte partiu para Italia. As ‘Saudades’[113] do seu amante ficaram eternizadas no mysterioso livro que com esse titulo compôs. D’elle se extrahiu este romance, propriamente soláo. Tudo aqui é contado e ditto por um modo de enigmas e allegorias inteiramente inexplicaveis para quem ignorasse os mysteriosos amores do trovador e da princeza. Tam sincero—e amiude grosseiro a podêr de sincero—é o modo de dizer dos antigos menestreis, quanto este é delicado por demais, e á força de o ser, obscuro.
O argumento simplissimo diz-se em poucas palavras. Beatriz está retirada em sua camera. Sua paixão por Bernardim é segredo para a boa ama que a criou e que tanto lhe quer. Canta-lhe ésta um ‘cantar’ a modo de ‘soláo’ em que tristemente conta e lamenta a má ventura que desde a nascença tem perseguido a sua querida menina, e que maiores desgraças lhe faz temer no futuro.
O stylo tem toda a ingenuidade dos antigos cantares, todo aquelle perfume de bonina selvagem que só se incontra pelas devezas incultas da poesia primitiva. E todavia, se ainda são as flores singelas do monte, ja se conhece arte no formar do ramalhete. Ja não são as notas desgarradas, e asperas por vezes, do primeiro trovar asturiano ou leonez que tiniam á dureza de ferro dos descendentes de Pelayo. Ja por aqui andam modos de trovador proençal. A melodia porêm ainda é puramente romantica; as harmonias é que presentem fórmas mais classicas. Vê-se o antigo toante do romance peninsular cedendo á difficil e dura lei das complicadas rhymas proençaes. Ha mais ainda; ha uma perfeição no número dos rhytmos que adivinha ja as doçuras italianas. É o trovador do seculo XV dando a mão ao poeta do seculo XVI. O que predomina todavia é o modo provençal; e este é, repitto, um legitimo soláo.