XXXIV
O CORDÃO DE OIRO
Não parece ésta uma d’aquellas verdes anecdotas que a prosa de Bocacio e os versos de Lafontaine immortalizaram? O stylo é menos licencioso, porque, sincera e nua ás vezes, comtudo é sempre mais casta a poesia primitiva. O seu pudor é o da ingenuidade que se despe porque mal não pensa, não o da hypocrisia que por maliciosa se cobre. Comtudo os dois ultimos versos são um verdadeiro remate de epigramma que faria honra a um poeta da eschola de Voltaire, e podia ser feixo de uma cantiga de vaudeville de Scribe. Entre portuguezes, só D. Francisco Manuel de Mello ou Nicolau Tolentino os faria tam naturaes e tam picantes ao mesmo tempo.
Assim a adivinhar, que é o unico modo de entrar n’estes pontos, orço a data d’esta composição pelos tempos da guerra da acclamação, isto é, por meados do seculo XVII.
É ommisso nos romanceiros dos nossos vizinhos; e em Portugal não tenho noticia de que se incontre senão na tradição oral de Tras-os-Montes, onde achei tres cópias d’elle, uma mais completa que as outras: d’ellas se appurou o presente texto. As variantes quasi todas despreziveis.
O CORDÃO DE OIRO
Lá se vai o capitão
C’os seus soldados á guerra: