Quem desce Tejo abaixo, por ésta margem do Norte onde está Lisboa, e tendo saudado o precioso monumento de Belem, a sua tôrre não menos bella, entra no fashionavel Pedroiços e d’ahi segue ás praias do Dafundo até á Cruz-quebrada, tem dado o mais bonito passeio que se póde dar nas vizinhanças da capital, e visitado os sitios que, depois de Cintra, mais frequenta a sociedade elegante da nossa terra. De fins de Agosto a principios de Novembro é que tudo alli corre, e que os banhos do mar povoam aquelles bellos ermos, nas outras estações desamparados.
Quem tiver porêm o bom gôsto de resistir ao despotismo tarifeiro da moda, e se abalançar em Maio ou Junho a este largo passeio, que no estado dos nossos caminhos é antes uma pequena viagem, creia que hade ser pago de sua nobre ousadia. Não ha palavras que digam todas as bellezas d’aquella terra, d’aquelle ceo, d’aquellas aguas. Á esquerda o Tejo, os navios que entram e sahem, as frotas de barcos pescarejos, a areia alva juncto á beira d’agua, e logo pegada á salsugem, a prodigiosa vegetação das plantas que a amam e em que se pasce gulloso e largo á vontade o gado. Perto, um saveiro que chegou á terra e cuja companha pucha ao longo da praia pela rede que arrasta os innumeraveis cardumes de peixes que logo virão saltar na areia. Á direita nas eminencias, as ruinas picturescas de conventos desertos, de moinhos abandonados, de fortes, de atalaias. E tudo isto incastoado na verdura viçosa e florida da primavera que ainda não queimou o sol do estio. No fim do verão quando vai todo o mundo, ja não ha senão resteva nos campos, talos de hervas seccas nos montes, árvores sem folha, poeira nos ares, e uma ventaneira despregada que não cessa.
Ja me eram familiares de annos aquelles sitios; mas posso dizer que os não conheci bem e como elles são devéras, senão quando, haverá hoje tres annos, alli fui um dia primeiro de Maio. Fui, como de maravilha em maravilha, por todos os pontos que tenho nomeado; mas chegando á ribeira de Jamor, parei extasiado no meio de sua ponte, porque a varzea que d’ahi se extende, recurvando-se pela direita para Carnaxide, e os montes que a abrigam em deredor, estava tudo de uma belleza que verdadeiramente fascinava. O trigo verde e viçoso ondeava com a viração desde as veigas que rega o Jamor, até os altos onde velejam centenares de moinhos. Árvores grandes e bellas, como rara vez se incontram n’esta provincia dendroclasta, rodeavam melancholicamente, no mais fundo do vale, a velha mansão do Rodizio. E lá, em prespectiva, no fundo do quadro, uma aldea de Suissa com suas casinhas brancas, suas ruas em soccalcos, seu presbiterio ornado de um ramalhete de faias; grandes massas de basalto negro pelo meio de tudo isto, parreiraes, jardinzitos quasi pensis, e uma graça, uma simplicidade alpina, um sabor de campo, um cheiro de montanha, como é difficil de incontrar tam perto de uma grande capital.
O logarejo é bem conhecido de nome e fama, chama-se Linda-a-Pastora. Porque? Não sei. Tem-me jurado antiquarios de ‘meia-tijella’ que o seu nome verdadeiro é Niña a Pastora. Mas emquanto não achar algum de ‘tijella inteira’ que me saiba dar a razão por que se havia de chamar assim, meio em portuguez meio em castelhano, um aldeote de aopé de Lisboa—heide chamar-lhe eu, como os seus habitantes e toda a gente diz: Linda-a-Pastora.
Namorei-me do sitio por modo, que alli passei o verão todo; e d’alli fiz deliciosas excursões pelas vizinhanças, que todas são bonitas. Foi n’este proprio e appropriado sitio que a Sr.ª Francisca, lavadeira bem conhecida do logar, me deu a última e, ao parecer, mais correcta licção que do presente romance tinha obtido. Em outras partes do reino traz elle o titulo de ‘Pastorinha;’ aqui era justo e natural que se lhe désse o de Linda-a-Pastora’, que assentei conservar-lhe.
Na fórma é um romance em endeixas, mas o fundo é de uma verdadeira pastourella do genero provençal; nem a fariam mais graciosa Giraud Riquier ou Giraud de Borneill.
Tem muitas variantes, porque todo o reino a sabe e canta. Eu noto somente as principaes.