XXIV
DONZELLA QUE VAI Á GUERRA
Apezar de que se não incontra nas collecções impressas, sabemos, pelos nossos escriptores portuguezes, que este romance é de inquestionavel origem castelhana. Por fins do seculo XVI ainda se cantava na sociedade, por gentis damas e galantes cavalheiros; e, ja se vê, em castelhano se cantava. D’esse tempo escrevia Jorge Ferreira na AULEGRAPHIA[36]; ‘Não ha entre nós quem perdoe a hũa troua portugueza, que muytas vezes he de vantagem das castelhanas que se tem aforado comnosco e tomado posse do nosso ouvido.’ Bem ás vessas do que succedia dois seculos antes, em tempos do marquez de Santillana, que os castelhanos trovavam em portuguez para serem acceitos seus dizeres e cantares na propria côrte dos reis de Castella[37].
Devia dar-se, ao menos entre nós, a este romance o seu titulo primitivo ‘O rapaz do Conde Daros’, porque assim lhe chama Jorge Ferreira em outra das muito curiosas scenas da ja citada AULEGRAPHIA, tam riccas todas de preciosa e rara informação para o estudo dos costumes e usos d’aquelle tempo. É na primeira do acto III, chistosa e desinfadada conversação entre dois galantes do paço, Dinardo Pereira e Grasidel de Abreu, que se divertem fazendo de l’esprit á moda do tempo com agudezas e requintes, em quanto não vem o jantar ‘que está para dois toques’. Tracta-se entre aquelles fashionaveis da era de quinhentos, de fazer alguma coisa elegante: sonetos, por exemplo, trovas, ou quejandas galanices d’então—como hoje sería jogar um ruber (róber?), experimentar uma walsa nova no piano etc. Não é o menos gracioso d’este quadro, o áparte dos dois criados Rocha e Cardoso, que á soccapa estão glosando e mettendo a ridiculo os alambicados conceitos dos amos. Dinardo, que é o mais prendado, resolve-se emfim pelo romance e a guitarra.
DINARDO
Ora poys que assi te tocarey: O rapaz do Conde Daros.
ROCHA
De prazer vem vosso amo, algum passarinho novo vio lá.
CARDOZO
Vería muyto má ventura, que sempre anda apos estes...