Vendido no mercado de Salé pelos corsarios que o tomaram, um pobre captivo christão vai ser escravo de avarento e ricco judeu, que lhe dá negra vida. É o primeiro capítulo de uma historia sabida e commum: e naturalmente se espera ja o segundo, que é namorar-se do interessante captivo a bella filha do mau perro judio, animá-lo, consolá-lo, querer fugir com elle de moirama.—Atéqui vamos pela estrada coimbran d’estas aventuras, que por seculos foram quasi quotidianas entre nós. Mas d’ahi por deante o caso sai um tanto da marcha ordinaria. O captivo não renega nem foge com a bella judia; e ella apaixonada, rendida, perdida... conhece porfim que não é amada: nos molles braços da amante, o ingrato christão suspirava, chorava por sua terra talvez, por outros amores, quem sabe? Mas

‘Chorava—que não por ella!’

Não se espera a vingança da bella judia: da-lhe dinheiro para se resgatar, dinheiro do seu d’ella que sua mãe lhe deixára. Apertada pelo pae que suspeita a verdade, ella confessa tudo, mas defende o christão por innocente; e só de uma alta tôrre, contempla a última vela que lhe foge no horisonte com o ingrato amante.

O romance anda por Lisboa, Ribatejo e Extremadura fóra; não me chegou informação de que se internasse mais pelas provincias: não deve de ser mais antigo que o meado do seculo XVII se a copla em que se allude a Ceuta e a Mazagão não é ‘rifacimento’ moderno, como tambem póde ser, e me inclino a crer que é, porque no resto, o sabor e o stylo é mais velho.

Não apparece nas collecções castelhanas; e se não foi originalmente escripto em portuguez, nacionalizou-se por tal modo, que se lhe não descobre vestigio bem auctorisado e certo de outra origem. Nem façam dúvida os artigos lo, la em vez de o, a; porque não só os escriptores antigos, mas o povo de hoje os substitue assim a miudo quando lh’o pede o mal soante do hyato. Tambem dizem mi’ por minha, padre e madre por pae e mãe; e outros que parecem castelhanismos sem o serem. Me’ pae diz ainda hoje, por euphonia, o alemtejano, como em tempos de Gil-Vicente, se dizia e cantava m’ amor por meu amor.

O CAPTIVO

Eu vinha do mar de Hamburgo[61]