XXVI
A NAU CATHRINETA

Não é para admirar que seja tam geralmente sabida e querida ésta xácara. O que admira é que não seja mais commum entre nós o romance maritimo. Um paiz de navegantes, um povo que viveu mais do mar que da terra; que as suas grandes glórias as foi buscar ao largo oceano; que por não caber em seus estreitos limites de Europa, devassou todo o imperio das aguas para se extender pelo universo,—não póde deixar de ter produzido muito Cooper popular e muito Camões de rua e de aldea que, em seus pequenos Lusiadas, cantasse as mil aventuras de tanto galeão e caravella que se lançavam destemidos

Por máres nunca d’antes navegados.

Temos em prosa muita relação popular de naufragios que rivaliza em simplicidade antiga com os Chronicons da meia-edade, e cujos escriptores parecem discipulos do arcebispo Turpin, do auctor da ‘Formosa Magallona’ ou da ‘Donzella Theodora.’ Como elles, andaram muitos annos a cavallo em barbantes no logar do cego stacionario, ou no bornal do cego ambulante; e só em meios do seculo passado começaram a junctar-se em volumes na bem conhecida collecção intitulada ‘Historia tragico-maritima[74].’

Algumas d’estas narrativas feitas por pessoas que tiveram parte na aventura, são palpitantes de interêsse e de verdade, contêem descripções inimitaveis, desenhadas do vivo, e taes que fazem impallidecer as mais animadas paginas do ‘Reddrover’ e do ‘Pirata.’

Não cingrariam jamais com os nossos argonautas senão os Homeros das grandes Odysseas? Nunca um pobre menestrel do povo que dissesse na harpa ou na violla esses humildes cantares que não cabem na tuba epica, mas tambem não precisam dos characteres de Gerardo da Vinha ou de Craesbeck, porque se gravam na memoria do povo e se perpetuam no livro vivaz das gerações?

É impossivel: seus poetas tem, seus chronistas, seus historiadores; havia de ter seus menestreis e seus trovadores, a aventurosa vida de nossos mareantes.

Mas essas ingenuas rhapsodias, quem as apagou assim do livro popular? Que estupidos monges fizeram palimpsestes de suas páginas bellas?—que apenas hoje podêmos decyphrar a custo algum fragmento oblitterado como este!

Não é facil responder com precisão. Mas são certas as razões geraes e sabidas do orgulho monachal, e falso gôsto de nossos litteratos de universidade e de côrte. Se tirarmos Gil-Vicente e Bernardim-Ribeiro, o mesmo ou peior diremos dos poetas, que todos ou quasi todos venderam sua alma aos classicos latinos, aos italianos da renascença, e desprezaram, por vulgares, as primitivas fórmas de seus cantores naturaes.