Assim chegou aopé de Joanninha que o esperava de braços abertos, que o appertou n'elles, que o beijou sem nenhum falso recato de maliciosa modestia, e com o riso da alegria no coração e na bôcca lhe disse:
—'Ora pois, meu Carlos, sentemo-nos aqui bem junctos aopé um do outro e conversemos, que temos muito que fallar. Dá ca a tua mão. Aqui na minha… Está fria a tua mão hoje! E hontem tam quente estava!.. Oh! agora vai aquecendo… tanto tanto… é demais! Terás tu febre?'
—'Não tenho.'
—'Não tens, não: a cara é de saude. E como tu estás forte, grande, um homem como eu sempre imaginei que um homem devia ser, como sempre te via nos meus sonhos!.. Que é extranho isto, Carlos: quando sonhava comtigo, não te via como tu d'aqui foste, magro, triste e doente; via-te como vens agora, forte, são, alegre. Mas tu não estás alegre hoje, como hontem; não estás… Que tens tu?'
—'Nada, querida Joanninha, não tenho nada. Pensava…'
—'Em que pensas tu? dize-me.'
—'Pensava na differença dos nossos sonhos: que eu tambem sonhava comtigo.'
—'Sonhavas, Carlos! E como sonhavas tu? como me vias nos teus sonhos?'
—'Tudo pelo contrario do que tu. Via-te aquella Joanninha piquena, desinquieta, travêssa, correndo por essas terras, saltando essas vallas, trepando a essas árvores… aquella Joanninha com quem eu andava ao collo, que trazia ás cavalleiras, que me fazia ser tam doido e tam criança como ella, apezar de eu ter quinze annos mais. Via-te alegre, cantando…'
—'Sonhos de homem! Creiam n'elles! Eu que nunca mais ri nem brinquei desde o dia que tu partiste… E oh que dia, Carlos!.. E os que vieram depois! Não houve nunca mais um so dia de alegria n'ésta casa. Oh!.. deixa-me te dizer: Fr. Diniz… Sabes que não gósto d'elle?'