—'Que dizes tu, Joanna! E como sabes?'

—'Sei, sei tudo.'

—'Tu!'

—'Eu. Sei que foi elle quem fez cegar minha avó… a nossa boa, a nossa sancta avó, Carlos!.. quem a cegou á fôrça de lagrymas que lhe fez chorar áquelles pobres olhos que, de puro cançados, se apagaram para sempre… Minha ricca avó!—E porquê, meus Deus, porquê!'

—'Porquê?'

—'Por amor de ti, por escrupulos que lhe metteu na cabeça de tu seres mau christão, inimigo de Deus, que te não podias salvar… tu meu Carlos! Vê que cegueira a do triste frade.'

—'Bem triste!'

—'Mas olha que o diz de boa-fé e pelo muito amor que te tem… que é um amor que eu não intendo: e o mesmo é com minha avó, que treme deante d'elle. E mais elle estima-a, estou certa que dava a vida por ella… e por nós todos… por mim não tanto, mas por ti e por ella, dava decerto. Mas o seu amor é dos que rallam, que, apoquentam… quasi que estou em dizer que matam.'

—'Matam, matam!'

—'Nossa avó é elle que a mata decerto. Sempre a metter-lhe medos, sempre escrupulos! O seu Deus d'elle é um Deus de terrores, de vinganças, de castigos, e sem nenhuma misericordia. Oh! que homem! para elle tudo é peccado, maldade… Não o posso ver.'