Pois é assim; e explica-se.—É a litteratura que é uma hypocrita: tem religião nos versos, charidade nos romances, fé nos artigos de jornal—como os que dão esmolas para pôr no Diario, que amparam orphans na Gazeta, e sustentam viuvas nos cartazes dos theatros.

E fallam no Evangelho! Deve ser por escarneo. Se o leem, hãode ver lá que nem a esquerda deve saber o que faz a direita…

Vamos á descripção da estalagem; e acabemos com tanta digressão.

Não póde ser classica, está visto, a tal descripção.—Seja romantica.—Tambem não póde ser. Porque não? É pôr-lhe lá um Chourineur a amolar um facão de palmo e meio para espatifar rez e homem, quanto incontrar,—uma Fleur-de-Marie para dizer e fazer pieguices com uma rozeirinha pequenina, bonitinha, que morreu, coitadinha!—e um principe allemão incoberto, forte no sôcco britannico, immenso em libras sterlinas, profundo em gyria de cegos e ladrões… e ahi fica a Azambuja com uma estalagem que não tem que invejar á mais pintada e da moda n'este seculo elegante, delicado, verdadeiro, natural!

É como eu devia fazer a descripção: bem o sei. Mas ha um impedimento fatal, invencivel—egual ao d'aquella famosa salva que se não deu… é que nada d'isso lá havia.

E eu não quero calumniar a boa gente da Azambuja. Que me não leam os taes, porque eu heide viver e morrer na fé de Boileau:

Rien n'est beau que le vrai.

Ja se diz ha muito anno que honra e proveito não cabem n'um sacco; eu digo que belleza e mentira tambem lá não cabem: e é a mais portugueza traducção que creio que se possa fazer d'aquelle ímmortal e evangelico hemystichio. A maior parte das bellezas da litteratura actual fazem-me lembrar aquellas formosuras que tentavam os sanctos eremitas na Thebaida. O pobre de Sancto Antão ou de S. Pacomio (Pacomio é melhor aqui) ficavam imbasbacados ao princípio; mas dava-lhe o coração uma pancada, olhavam-lhe para os pés…—Cruzes maldicto! Os pés não podia elle incobrir. E ao primeiro abrenuntio do sancto, dissipava-se a belleza em muito fummo de inxofre, e ficava o diabo negro feio e cabrum como quem é, e sempre foi o pae da mentira.

Nada, nada, verdade e mais verdade. Na estalagem da Azambuja o que havia era uma pobre velha a quem eu chamei bruxa, porque emfim que havia de eu chamar á velha suja e maltrapida que estava á porta d'aquella asquerosa casa?

Havia lá ésta velha, com a sua môça mais môça mas não menos nojenta de ver que ella, e um velho meio paralytico meio demente que alli estava para um canto com todo o geito e traça de quem vem folgar agora na taberna porque ja bebeu o que havia de beber n'ella.