Mas emquanto ia navegando o corpo da sancta, teve Celio, o abbade do convento, uma revelação que lhe descobriu a verdade e os milagres do caso; e communicando-a logo aos monges e ao povo de Nabancia, sahiu com todos de cruz alçada, e foi por esses campos da Golegan fóra, até chegar á Ribeira de Santarem. Ahi benzendo as aguas do rio, éstas se retiraram cortezes e deixaram ver o sepulchro que era de fino alabastro, obrado á maravilha pelas mãos dos anjos.

Chegaram aopé do tumulo, abriram-n'o, viram e tocaram o corpo da sancta, mas não o poderam tirar, por mais diligencias que fizeram. Conheceu-se que era milagre; e contentando-se de levar reliquias dos cabellos e da tunica, voltaram todos para a sua terra.

As aguas tornaram a junctar-se e a correr como d'antes, e nunca mais se abriram senão d'ahi a seis seculos e meio, quando a boa rainha sancta Isabel, mulher d'el-rei D. Diniz, tam fervorosas orações fez aopé do rio pedindo á sancta que lhe apparecesse, que o rio tornou a abrir-se como o mar Vermelho á voz de Moises, dizem os devotos chronistas, e patenteou o benditto sepulchro.

Entrou a rainha a pé inchuto pelo rio dentro, seguida de seu real espôso e de toda a sua côrte; mas por mais que rezasse ella, e que trabalhassem os outros com todas as fôrças humanas, não poderam abrir o tumulo; quebraram todas as ferramentas, era impossivel. Desinganado el-rei de que um podêr sobrehumano não permittia que elle se abrisse, mandou a toda a pressa levantar um padrão muito alto sôbre o mesmo tumulo, e tam alto que o rio na maior inchente o não podesse cubrir.

O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros acabassem, e quando viu que podia continuar a correr, deu aviso, retiraram-se todos, tornaram a junctar-se as aguas e o padrão ficou sobresahindo por cima d'ellas.

Passaram mais tres seculos e meio; e no anno de 1644 a camara de Santarem mandou refazer de cantaria lavrada o ditto marco ou pedestal que não era senão de alvenaria, e pôr-lhe em cima a imagem da sancta.

Ainda lá está, assás mal cuidado com tudo; lá o vi com estes olhos peccadores no corrente mez de julho de 1843. Mas, sem milagre nem orações, o rio tinha-se retirado, havia muito, para um cantinho do seu leito, e o padrão estava perfeitamente em sêcco, e em sêcco está todo o anno até começarem as cheias.

Tal é, em fidelissimo resummo, a historia da Sancta Iria dos livros.

A das cantigas é, como ja disse, muito outra e muito mais simples, conta-se em duas palavras. A sancta está em casa de seus paes; um cavalleiro desconhecido, a quem dão pousada uma noite, levanta-se por horas mortas, rouba a descuidada e innocente donzella, foge a todo o correr de seu cavallo, e chegado a um descampado d'alli muito longe, pretende fazer-lhe violencia… A sancta resiste, elle mata-a. D'alli a annos passa por ahi o indigno cavalleiro, ve uma linda ermida levantada no proprio sítio onde commetteu o crime, pergunta de que sancta é, dizem-lhe que é de Sancta Iria. Elle cai de joelhos a pedir perdão á sancta, que lhe lança em rosto o seu peccado e o amaldiçoa.

E acabou a historia.