Os illustrados municipaes Santarenos têem tido por vezes o nobre e generoso pensamento de demolir ésta porta! o arco de triumpho de Affonso Henriques, o mais nobre monumento de Portugal!
A idea é digna da epocha.
Felizmente parece que tem faltado o dinheiro para a demolição; e o senatus consulto dos dignos padres conscriptos não pôde ainda executar-se.
Não que eu creia este arco o genuino arco moiresco por onde entraram os bravos de D. Affonso; mas creio que essa porta da antiga villa se foi reparando, concertando e conservando em suas successivas alterações, até chegar ao que hoje está: e ainda assim como está, é um monumento de respeito que so barbaros pensariam desacatar e destruir.
Porcima d'ella está uma capellinha de N. S. da Victoria: quer a tradicção que primeiro erguida e consagrada á Virgem pelo heroico fundador da monarchia e da independencia portugueza. Este é um dos muitos pontos em que a religião das tradições deve ser respeitada e crida sem grandes exames, porque nada ganha a crítica em pôr dúvidas, e o espirito nacional perde muito em as acceitar.
Deixá-la estar a Virgem da Victoria sôbre o arco de Affonso Henriques. Prostremo'-nos e adoremos, como bons portuguezes, o symbolo da fé christan e da fé patriotica levantado pelas mãos insanguentadas do triumphador!
Mas sería elle ou não que levantou essa capellinha? os documentos faltam, os escriptores contemporaneos guardam silencio; a historia deve ser rigorosa e verdadeira…
Deve: e os grandes factos importantes que fazem epocha e são balizas da historia de uma nação, tambem eu os regeitarei sem dó quando lhes faltarem essas authênticas indispensaveis. Agora as circumstancias, para assim dizer, episodicas de um grande feito sabido e provado, quem as conservará senão forem os poetas, as tradições, e o grande poeta de todos, o grande guardador de tradições, o povo?
Eu creio na Senhora da Victoria de Santarem, e em muitos outros sanctos e sanctas, que a religião do povo tem por esses nichos e por essas capellas e por esses cruzeiros de Portugal, a recordar memorias de que se não lavrou outro auto, não se escreveu outra escriptura, de que não ha outro documento, e que os frades chroniqueiros não julgaram dever escrever no livro de terça ou de noa, em nenhum livro preto nem incarnado, porque o tinham por melhor escripto e mais bem guardado nos livros de pedra em que estava.
Coitados! não contaram com os apperfeiçoadores, reparadores e demolidores das futuras civilizações que, para pôr as coisas em ordem, tiram primeiro tudo do seu logar.