Vamos usando d'estas palavras que herdámos, sem metter louvados na herança; não succeda descobrirmos que estamos mais pobres do que se cuidava… vamos repetindo éstas phrases que nos formularam nossos antepassados sem as analysar com muito rigor; não succeda vermos claro demais que temos passado a vida a mentir…

Detesto a philosophia, detesto a razão; e sinceramente creio que n'um mundo tam desconchavado como este, n'uma sociedade tam falsa, n'uma vida tam absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as instituições, as conveniencias d'ella, affectar nas palavras a exactidão, a logica, a rectidão que não ha nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas as incoherencias.

Não fallemos mais n'isto, que faz mal, e acabemos aqui este capítulo.

CAPITULO XXXIX.

Processo de scepticismo em que está o auctor.—Moralistas de requiem.—O maior sonho d'esta vida, a logica.—Differença do poeta ao philosopho.—O coração de Horacio.—O collegio de Santarem.—Jesuitas e templarios.—O alliado natural dos reis.—'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que 'Ficar no tinteiro.'—San'Frei Gil e o Doutor Fausto.—De como o A. foi ao tumulo do sancto bruxo e o achou vazio.—Quem o roubaria?

O final do capítulo antecedente é, bem o sei, um terrivel documento para este processo de scepticismo em que me mandaram metter certos moralistas de requiem de quem tenho a audacia de me rir, d'elles e da sua querella e do seu processo, protestando não me aggravar nem appellar, nem por nenhum modo recorrer da mirifica sentença que suas excellentissimas hypocrisias se dignarem proferir contra mim.

Feita ésta declaração solemne, procedamos.

E quanto a ti, leitor benevolo, a quem so desejo dar satisfação, a ti, se ainda te cansas com essas chymeras, dou-te de conselho que voltes a pagina obnoxia, porque essas reflexões do último capítulo são tam deslocadas no meu livro como tudo o mais n'este mundo. Dorme pois, e não despertes do bello-ideal da tua logica.

É uma descuberta minha de que estou vaidoso e presumido, ésta de ser a logica e a exacção nas coisas da vida muito mais sonho e muito mais ideal do que o mais phantastico sonho e o mais requintado ideal da poesia.

É que os philosophos são muito mais loucos do que os poetas; e de mais a mais, tontos: o que est'outros não são.