'A nós tiraram-nos tudo, tudo! Até éstas mortalhas que tinhamos escolhido em vida e que nem a morte ousava roubar-nos.
'A furto e como quem se esconde para um acto criminoso, nós as vestimos ésta noite para commetter o que elles chamarão um furto, e que era uma obrigação sagrada nossa.
'Fomos á antiga casa de nossos irmãos e roubámos o corpo do bemaventurado San'Frei Gil.
'Aqui vo-lo intregâmos; guardae-o. Emquanto estes muros estiverem em pe, que o abriguem dos desacatos d'essa gente sem Deus nem lei. A vós não ousarão expulsar-vos d'aqui: talvez vos matem á fome… Não póde ser: Deus não hade permitti-lo.
'Mas qualquer que seja a sua vontade, resignae-vos a ella, minhas irmans. So elle sabe como nos ama e como nos castiga. Louvemo'-lo por tudo.'
Aqui foi um chorar e um supplicar fervente como so se ouve na hora da angústia.
As afflictas monjas, estavam prostradas nas lages humidas do claustro, sôbre as sepulturas de suas irmans, sôbre seus proprios jazigos que haviam de ser. O frade com os braços extendidos pronunciou as solemnes palavras de benção, descrevendo com a direita o augusto symbolo da redempção:
'Bemdiga-vos Deus omnipotente, Pae, Filho e Espirito-sancto!' 'Amen!' respondeu o côro; e os tres proscriptos se retiraram, deixando a salvo o seu thesoiro.
Assim desappareceu do tumulo o corpo de San'Frei Gil de Santarem.
Ninguem sabía d'elle: soube eu e guardei o segredo religiosamente.