O italiano tinha fé em Deus, o allemão no scepticismo, o portuguez na sua patria. É preciso crer em alguma coisa para ser grande—não so poeta—grande seja no que for. Uma Brizida velha que eu tive, quando era pequeno, era famosa chronista de historias da carochinha, porque sinceramente cria em bruxas. Napoleão cria na sua estrella, Lafayette creu na republica-rei de Luiz-Philippe; e, para que ousemos tambem celebrare domestica facta, todos os nossos grandes homens ainda hoje creem, um na juncta do crédito, outro nas classes inactivas, outro no mestre Adonirão, outro finalmente na belleza e realidade do systema constitucional que felizmente nos rege.

Mas essas crenças são para os que se fizeram grandes com ellas. A um pobre homem o que lhe fica para crer? Eu, apezar dos criticos, ainda creio no nosso Camões: sempre cri.

E comtudo, desde a edade da innocencia em que tanto me divertiam aquellas batalhas, aquellas aventuras, aquellas historias d'amores, aquellas scenas todas, tam naturaes, tam bem pintadas—até ésta fatal edade da experiencia, edade prosaica em que as mais bellas creações do espirito parecem macaquices deante das realidades do mundo, e os nobres movimentos do coração chymeras de enthusiastas—até ésta edade de saudades do passado e esperanças no futuro, mas sem gosos no presente—em que o amor da patria (tambem isto será phantasmagoria?), e o sentimento intimo do bello me dão na leitura dos Lusiadas outro deleite diverso, mas não inferior ao que n'outro tempo me deram—eu senti sempre aquelle grande defeito do nosso grande poema: e nunca pude, por mais que buscasse, achar-lhe, justificação não digo—nem siquer desculpa.

Mas até morrer aprender, diz o adagio: e assim é. E tambem é aphorismo de moral, applicavel outrosim a coisas litterarias: que para a gente achar a desculpa aos defeitos alheios, é considerar—é pôr-se uma pessoa nas mesmas circumstancias, ver-se involvido nas mesmas difficuldades.

Aqui estou eu agora dando toda a desculpa ao pobre Camões, com vontade de o justificar, e prompto (assim são as charidades d'este mundo) a sahir a campo de lança em reste e a quebrá-la com todo o antagonista que por aquelle fraco o atacar.—E porque será isto? Porque chegou a minha hora; e—si parva licet componnere magnis (a bossa proeminente hoje é a latina), aqui me acho eu com este meu capitulo nas mesmas difficuldades em que o nosso bardo se viu com o seu poema.

Ja preveni as observações com o texto acima: bem sei quem era Camões, e quem sou eu; mas tracta-se da intalação, que é a mesma apezar da differença dos intalados. O auctor dos Lusiadas viu-se intalado entre a crença do seu paiz e as brilhantes tradições da poesia classica que tinha por mestra e modêlo.

Não havia ainda então romanticos nem romantismo, o seculo estava muito atrazado. As odes de Victor-Hugo não tinham ainda desbancado as de Horacio; achavam-se mais lyricos e mais poeticos os esconjurios de Canidia, do que os pesadelos de um inforcado no oratorio; chorava-se com os Tristes de Ovidio, porque se não lagrimejava com as meditações de Lamartine. Andromacha despedindo-se de Heitor ás portas de Troia, Priamo supplicante aos pés do matador do seu filho, Helena luctando entre o remorso do seu crime e o amor de Páris, não tinham ainda sido eclipsados pelas declamações da mãe Eva ás grades do paraizo terreal. O combate de Achilles e Heitor, das hostes argivas com as troianas, não tinha sido mettido n'um chinello pelas batalhas campaes dos anjos bons e dos anjos maus á metralhada por essas nuvens. Dido chorando por Eneas não tinha sido reduzida a donzella choramigas d'Alfama carpindo pelo seu Manel que vae para a India…

Realmente o seculo estava muito atrazado: Milton não se tinha ainda sentado no logar de Homero, Shakspeare no de Euripedes, e lord Byron acima de todos: emfim não estava ainda anglizado o mundo, portanto a marcha do intellecto no mesmo terreno, é tudo uma miseria.

Ora pois, o nosso Camões, creador da epopea, e—depois do Dante—da poesia moderna, viu-se atrapalhado; misturou a sua crença religiosa com o seu credo poetico e fez, tranchons le mot, uma semsaboria.

E aqui direi eu com o vate Elmano: