Veio a admiração primeiro.

E como as eu admirava todas tres as minhas gentis fascinadoras!

E ellas conheciam-n'o, riam, folgavam e estavam incantadas de me incantar.

Fizeram nascer os desejos!

Julguei-me perdido, e quiz fugir.

Não me deixaram e zombaram de mim, da ardencia do meu sangue hespanhol, da vehemencia das minhas sensações…

Em breve eu amava perdidamente uma d'ellas—queria muito ás outras duas; mas amar, amar devéras, d'alma cuidava eu, de coração ia jurá-lo, era a segunda—Laura, a mais gentil, mais nobre, mais elegante e radiosa figura de mulher que creio que Deus moldasse n'uma hora de verdadeiro amor de artista que se dignou tomar por esse pouco de greda que tinha nas mãos ao formá-la.

CAPITULO XLV.

Carta de Carlos a Joanninha: continúa.

Laura não era alta nem baixa, era forte sem ser gorda, e delicada sem magreza. Os olhos de um côr-de-avelan diaphano, puro, avelludado, grandes, vivos, cheios de tal majestade quando se iravam, de tal doçura quando se abrandavam, que é difficil dizer quando eram mais bellos. O cabello quasi da mesma côr tinha, demais, um reflexo dourado, vacillante, que ao sol resplandecia, ou antes, relampejava,—mas a espaços, não era sempre, nem em todas as posições da cabeça:—cabeça pequena, modelada no mais classico da statuaria antiga, poisada sôbre um collo de immensa nobreza, que harmonizava com a perfeição das linhas dos hombros.