—'Errámos ambos.'

—'Errámos e sem remedio. A sociedade ja não é o que foi, não póde tornar a ser o que era;—mas muito menos ainda póde ser o que é. O que hade ser, não sei. Deus proverá.'

Ditto isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviario e poz-se a rezar. A velha dobava sempre, sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos alguns segundos. Nenhum me deu mais attenção nem pareceu conscio da minha estada alli.

Sentia-me como na presença da morte e atterrei-me.

Fiz um esfôrço sôbre mim, fui deliberadamente ao meu cavallo, montei, piquei desesperado d'esporas, e não parei senão no Cartaxo.

Incontrei alli os meus companheiros; era tarde, fomos ficar fóra da villa á hospedeira casa do Sr. L. S.

Rimos e folgámos até alta noite: o resto dormimos a somno sôlto.

Mas eu sonhei com o frade, com a velha—e com uma enorme constellação de barões que luzia n'um ceu de papel, d'onde choviam, como farrapos de neve, n'uma noite pollar, notas azues, verdes, brancas, amarellas, de todas as côres e matizes possiveis. Eram milhões e milhões e milhões…

Nunca vi tanto milhão, nem ouvi fallar de tanta riqueza senão nas mil e uma noites.

Acordei no outro dia e não vi nada… so uns pobres que pediam esmola á porta.