—'Como assim o Alfageme?'
—'Chamam-lhe o Alfageme ao mestre J. P.: pois então! Uns senhores de Lisboa que ahi estiveram em casa do Sr. D. poseram-lhe esse nome, que a gente bem sabe o que é; e ficou-lhe, que agora ja ninguem lhe chama senão o Alfageme. Mas quanto a mim, ou elle não é Alfageme, ou não o hade ser muito tempo. Não é aquelle, não. Eu bem me intendo.'
A conversação tornava-se interessante, especialmente para mim: quizemos profundar o caso.
—'Muito me conta, Sr. patrão! Com que isto de ser Alfageme, parece-lhe que é coisa de?..
—'Parece-me o que é, e o que hade parecer a todo o mundo. E alguma coisa sabemos, ca no Cartaxo, do que vai por elle. O verdadeiro Alfageme diz que era um espadeiro ou armeiro, cutileiro ou coisa que o valha, na Ribeira de Santarem; e que foi um homem capaz, e que tinha pelo povo, e que não queria saber de partidos, e que dizia elle: 'Rei que nos inforque, e papa que nos excommungue, nunca hade faltar. Assim, deixar os outros brigar, trabalhemos nós e ganhemos a nossa vida.' Mas que extrangeiros que não queria, que ésta terra que era nossa e co'a nossa gente se devia de governar. E mais coisas assim: e que porfim o deram por traidor e lhe tiraram quanto tinha.—Mas que lhe valeu o Condestavel e o não deixou arrazar, por que era homem de bem e fidalgo ás direitas. Pois não é assim que foi?'
—'É, sim, meu amigo. Mas então d'ahi?'
—'Então d'ahi o que se tira, é que quando havia fidalgos como o sancto
Condestavel tambem havia Alfagemes como o de Santarem. E mais nada.'
—'Perfeitamente. Mas porque chamaram ao mestre P. o Alfageme do
Cartaxo?'
—'Eu lhe digo aos senhores: o homem nem era assim nem era assado. Fallava bem, tinha sua labia com o povo. D'ahi fez-se juiz, pôs por ahi suas coisas a direito—Deus sabe as que elle intortou tambem!.. ganhou nome no povo, e agora faz d'elle o que quer. Se lhe der sempre para bem, bom será.—Os senhores não tomam nada?'
O bom do homem visivelmente não queria fallar mais: e não deviamos importuná-lo. Fizemos o sacrificio de bom número de limões que expremémos em profundas taças—vulgo, copos de canada—e com agua e assucar, offerecemos as devidas libações ao genio do logar.