Era o unico signal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso,
velha, cadeira, dobadoira, tudo pareceria uma graciosa sculptura de
Antonio Ferreira ou um d'aquelles quadros tam verdadeiros do morgado de
Setubal.
O movimento bem visivel da dobadoira era regular, e respondía ao movimento quasi imperceptivel das mãos da velha. Era regular o movimento, mas durava um minuto e parava, depois ia seguido outros dous, tres minutos, tornava a parar: e n'esta regularidade de intermitencias se ia alternando como o pulso de um que treme sesões.
Mas o velha não tremia, antes se tinha muito direita e aprumada: o parar do seu lavor era porque o trabalho interior do espirito dobrava, de vez em quando, de intensidade, e lhe suspendia todo o movimento externo. Mas a suspensão era curta e mesurada; reagia a vontade, e a dobadoira tornava a andar.
Os olhos da velha é que tinham uma expressão singular: voltada para o poente, não os tirou d'essa direcção nem os inclinava de modo algum para a dobadoira que lhe ficava um pouco mais á esquerda. Não pestanejavam, e o azul de suas pupillas, que devia de ter sido brilhante como o das saphyras, parecia desbotado e sem lume.
O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou tranquillamente as mãos e o novello no regaço, e chamou para dentro da casa:
—'Joanninha?'
Uma voz doce, pura, mas vibrante, d'estas vozes que se ouvem rara vez, que retinem dentro d'alma e que não esquecem nunca mais, respondeu de dentro:
—'Senhora? Eu vou, minha avó, eu vou.'
—'Querida filha!.. Como ella me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando podéres. É a meada que se me imbaraçou.'
A velha era cega, cega de gotta-serena, e paciente, resignada como a providencia misericordiosa de Deus permitte quasi sempre que sejam os que n'este mundo destinou á dura provança de tam desconsolado martyrio.