Era o C. da T. que chegava.

—'Este conheço eu; este é dos nossos (bradou um homem de forcado, assim que o viu). Isto é um fidalgo como se quer. Nunca o vi n'uma ferra, isso é verdade; mas aqui de Vallada a Almeirim ninguem corre mais do que elle por sol e por chuva, e hade saber o que é um boi de lei, e o que é lidar com gado.'

—'Pois oiçamos lá a questão.'

—'Não é questão'—tornou o Ilhavo: 'mas se este senhor fidalgo anda por Almeirim, para Almeirim vamos nós, que era uma charneca o outro dia, e hoje é um jardim, benza-o Deus!—mas não foram os campinos que o fizeram, foi a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez o que é, e fez terra das areas da charneca.'

—'Lá isso é verdade'.

—'Não, não é! Que está forte habilidade fazer dar trigo aqui aos nateiros do Tejo, que é como quem semeia em manteiga. É uma lavoira que a faz Deus por sua mão, regar e adubar e tudo: e o que Deus não faz, não fazem elles, que nem sabem ter mão n'esses monchões c'o plantio das arvores: so lá por cima é que algumas teem mettido, e é bem pouco para o rio que é, e as riccas terras que lhes levam as inchentes.—Mas nós, pe no barco pe na terra, tam depressa estamos a sachar o milho na charneca, como vimos por ahi abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar n'area por não haver agua… mas sempre labutando pela vida'.

—'A fôrça é que se falla'—tornou o campino para estabelecer a questão em terreno que lhe convinha.—'A fôrça é que se falla: um homem do campo que se deita alli á cernelha de um toiro que uma companha inteira de varinos lhe não pegava, com perdão dos senhores pelo rabo!..'

E reforçou o argumento com uma gargalhada triumphante, que achou echo nos interessados circumstantes que ja se tinham apinhado a ouvir os debates.

Os Ilhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciencia da sua superioridade, mas acanhados pela algazarra.

Parecia a esquerda de um parlamento quando ve sumir-se, no borburinho acintoso das turbas ministeriaes, as melhores phrases e as mais fortes razões dos seus oradores.