—'Malditto! malditto sejas tu!' proseguiu o frade, 'filho ingrato, coração derrancado e perverso!'

—'Meu Deus, não o escuteis!' bradou a velha cahindo de joelhos no chão e prostrando-se na terra dura 'Meu Deus, não confirmeis aquellas palavras tremendas. Não o ouçais, Senhor, e valha o sangue precioso de vosso filho, as dores bemdittas de sua mãe, oh meu Deus! para arredar da cabeça do meu pobre filho as crueis palavras d'este homem sem piedade, sem amor!..'

A velha queria dizer mais; as angústias que se tinham estado juntando n'aquella alma, que porfim não podia mais e transbordava, queriam sahir todas, queriam derramar-se alli em lagrymas e soluços na presença do seu Deus que ella via sempre no throno das misericordias, que não podia acabar comsigo que o visse o inflexivel, o terrivel Deus das vinganças que lhe annunciava o frade. Mas a carne não pôde com o espirito, as fôrças do corpo cederam: tomou-a um mortal deliquio, immudeceu, e… suspendeu-se-lhe a vida.

Fr. Diniz contemplou-a alguns momentos n'esse estado e pareceu commover-se; mas aquelles nervos eram fios de ferro temperado que não vibravam a nenhuma suave percussão: deu dous passos para a porta da casa, bateu com o bordão e disse com voz firme e segura:

—'Joanna, acuda a sua avó que não está boa.'

D'ahi tomou por onde viera, e, sem voltar uma vez a cabeça, caminhou ápressado; breve se escondeu para lá das oliveiras da estrada.

CAPITULO XV.

Retratto de um frade franciscano que não foi para o depósito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das Bellas-artes.—Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada com a de Condillac.—Suas opiniões sôbre o liberalismo e os liberaes.—Que o podêr vem de Deus, mas como e paraquê.—Que os liberaes não intendem o que é liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se fossem.—Próva-se, pelo texto, que o homem não vive so de pão, e pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz.

Quem era Frei Diniz?

Disse-o elle:—um homem que se fizera frade, ja velho e cançado do mundo, que vestíra o hábito n'um tempo em que a mofa, o escarneo e o desprêzo seguiam aquella profissão; que o sabía, que o conhecia e que por isso mesmo o affrontára.