Eis aqui porque Diniz d'Atahide não quiz ser bento, nem jeronymo, nem cartucho, e se foi metter frade franciscano.
De todos os seus bens, que eram consideraveis, tirou apenas a modica somma de dinheiro que era necessaria para pagar o dote e piso de sua entrada no convento. Do resto fez doação inteira a D. Francisca Joanna—a velha hoje cega e decrepita que no princípio d'esta historia incontrámos dobando á sua porta na casa do valle.
A velha não tinha mais familia que um neto e uma neta.
A neta era Joanninha, filha unica de seu unico filho varão, e ja orphan de pae e de mãe.
O neto, orpham tambem, nascêra posthumo, e custára a vida a sua mãe, filha querida e predilecta da velha.
Antes da splendida doação de Fr. Diniz, a familia, que era de boa e honrada descendencia, podia dizer-se pobre; depois viviam remediadamente. Mas a velha não quiz nunca sahir do modesto estado em que atélli vivêra. Tinham fartura de pão, azeite e vinho de suas lavras; corria-lhe com ellas um criado velho de confiança; trajavam e tractavam-se como gente mean, mas independente.
Em tempos mais antigos e em vida dos dous filhos de D. Francisca, Fr. Diniz, então Diniz d'Atahide e corregedor da commarca, frequentára bastante aquella casa. Desde a morte do filho e do genro, que ambos pereceram desastradamente n'um dia cruzando o Tejo n'um saveiro em occasião de grande cheia, elle nunca mais lá tornára.
Até que se metteu frade, e que passaram annos e que o fizeram guardião do seu convento.
Ja a nora e a filha da velha tinham morrido tambem.
E foi notavel que na mesma hora em que Fr. Diniz professava em San'Francisco de Santarem, vestia D. Francisca aquella tunica roxa que nunca mais largou.