—'Isso, irman Francisca, isso! Peça a Deus que dê a victoria a seu neto, e á impiedade por que elle combate. Peça a Deus que vençam os inimigos declarados do seu nome, os destruidores de seus altares, os profanadores de seus templos… Oh! que dia bello e grande não hade ser esse, quando Carlos… o seu Carlos, vier expulsar, ás baionetadas, do pobre convento de San'Francisco, o velho guardião—que lhe não hade fugir, minha irman!.. d'elle menos que de nenhum outro… que ajoelhado deante do altar inclinará a cabeça como os antigos martyres para cahir na presença do seu Deus ás mãos do seu…'

—'Diniz!.. Padre!.. Padre Frei Diniz, que horrorosas palavras sahem da sua bôcca!.. Meu neto, o meu Carlos não é capaz… oh meu Deus!..'

—'Seu neto detesta-me… e tem… tem razão.'

—'Não sabe a verdade elle… Carlos está inganado, cuida… não sabe senão meia verdade: e eu, eu heide—custe o que me custar—eu heide…'

—'Hade o quê?'

—'Heide desinganá-lo, heide-lhe dizer a verdade toda. Heide prostrar-me na sua presença, heide humilhar-me deante do filho de minha filha, heide arrastar na poeira de seus pés éstas cans e éstas rugas… morrerei de vergonha e de remorsos deante do meu filho, mas elle hade saber a verdade.'

Sahiam com tal impeto e com tam desacostumada energia éstas mysteriosas e tremendas palavras da bôcca da velha, que Fr. Diniz não ousou contê-la; ouviu até ao fim, deixou quebrar o impeto da torrente, e erguendo então a sua voz austera mas pousada, disse n'aquelle tom friamente decisivo que tanto impõe aos animos apaixonados:

—'Se tal fizesse, mulher, a minha maldicção, a maldicção eterna de Deus sôbre a sua cabeça para sempre!… Oh mulher, pois não lhe basta que elle me abhorreça—não lhe basta que seu neto lhe perdesse o amor… quer… quer tambem que nos despreze?'

A velha gemeu profundamente, e, por um geito de antiga reminiscencia, levou as mãos aos olhos como se os tapasse para não ver. Então disse com desconsoladas lagrymas na voz:

—'A vontade de Deus seja feita!'