—'Joanninha!' murmurou elle apenas a viu á luz ainda bastante do crepusculo. 'Joanninha!' disse outra vez, contendo a violencia da exclamação: 'É ella sem dúvida. Mas que differente!… quem tal diria! Que graça, que gentileza! Será possível que a criança que ha dois annos?..'

Dizendo isto, por um movimento quasi involuntario lhe tomou a mão adormecida e a levou aos labios.

Joanninha estremeceu e acordou.

—'Carlos, Carlos!'—balbuciou ella com os olhos ainda meio-fechados, Carlos, meu primo… meu irmão! era falso, dize: era falso? Foi um sonho, não foi, meu Carlos?..'

E progressivamente abria os olhos mais e mais até se lhe espantarem e os cravar n'elle arregalados de pasmo e de alegria.

—'Foi, foi' continuou ella 'foi sonho, foi um sonho mau que eu tive. Tu não morreste… Falla á tua irman, á tua Joanna; dize-lhe que estás vivo, que não es a sombra d'elle… Não es, não, que eu sinto a tua mão quente na minha que queima, sinto-a estremecer como a minha… Carlos, meu Carlos! dize, falla-me: tu estás vivo e são? E es… es o meu Carlos? Tu proprio, não é ja o sonho, es tu?…'

—'Pois tu sonhavas? tu, Joanna, tu sonhavas commigo?'

—'Sonhava como sonho sempre que durmo… e o mais do tempo que estou acordada… sonhava com aquillo em que so penso… em ti.'

—'Joanna!… prima… minha irman!'

E cahiu nos braços d'ella; e abraçaram-se n'um longo, longo abraço—com um longo, interminavel beijo..! longo, longo e interminavel como um primeiro beijo d'amantes…