Foi aquelle Soberano quem mandou á Abyssinia, na qualidade de seu Embaixador, Dom Francisco Alvares, o qual passados alguns annos em 1558 publicou a «Historia descriptiva da Ethiopia».

Damião de Goes e Faria e Souza, julgam a obra defeituosa; todavia parece fóra de duvida ser o primeiro escripto detalhado ácerca da Abyssinia.

Miguel de Castanhoso publicou em 1541 a sua interessante historia ácerca da expedição dos portuguezes sob o mando do valoroso Affonso de Albuquerque. Esta historia, apesar de contar 343 annos depois da sua publicação, o governo italiano julgou acertado (no interesse da sua recente expedição á Abyssinia) mandar traduzil-a sob o titulo: «Storia della spedizione Portughese in Abyssinia nel seculo XVI, narrata da Michelo de Castanhoso».

Os primitivos exploradores portuguezes eram invariavelmente seguidos de fervorosos missionarios das ordens religiosas que n'essas epochas remotas de preferencia se empregavam na propagação da fé as de Santo Agostinho, S. Francisco e S. Domingos. Foram os missionarios d'essas ordens os primeiros que levaram a religião christã á Africa, Asia e America.

Apenas organisada a Companhia de Jesus em{7} 1540 , os padres d'aquella ordem, especialmente os portuguezes, prestaram importantes servicos á fé, á civilisação, á agricultura e ao commercio, em toda a vastidão do territorio aonde o pendão das quinas tinha alcançado. A elles é igualmente devida a descoberta da origem do Nilo. Os padres portuguezes Pedro Paes e Francisco Lobo levaram a effeito essa arrojada empreza.

Segue-se a narrativa, publicada em 1665, do Patriarcha Dom João Bermudez, o qual viera a Portugal na qualidade de Embaixador do Rei da Abyssinia junto de El-Rei Dom Sebastião. O Patriarcha descreve com especialidade os combates e as victorias de Dom Christovão da Gama na Abyssinia.

Os padres da Companhia, Patriarcha Affonso Mendes, Melchior da Silva, Francisco Lobo e Nicolau Godinho, escreveram igualmente sobre a Abyssinia. Este padre publicou em Roma, (em latim), tres obras importantes; uma refutando o que sobre a Abyssinia escrevera o padre Dom Luis Urreta, hespanhol, e frade Dominicano. A segunda ácerca da vida do padre Gonçalves da Silveira, martyrisado na Africa oriental, em 15 de março de 1561; e a terceira: «De Abassiorum Rebus de que Aithiopiæ Patriarchus Joanne Nonio Barreto & Andrea. Oviedo, 1615».

Que os escriptos dos missionarios portuguezes eram tidos em grande apreço nos seculos XVI e XVII, temos muitas provas; entre outras uma carta geographica (da qual possuimos um exemplar), publicada em Veneza no tempo da Republica, intitulada: «Abyssinia, dove sono le Fonti del Nilo, discrita secondo le relationi de P. P. Mendes, Almeida, Paes, Lobo e Lodulfo».{8}

A historia da Abyssinia do Padre Balthazar Telles, publicada em 1660, merece particular attenção: «Historia general da Ethiopia a alta ou Preste João, e do que n'ella observaram os padres da Companhia de Jesus, composta na mesma Ethiopia pelo padre Manoel d'Almeida, natural de Vizeu, Provincial e Visitador que foi na India, abreviada com novas relações e methodo pelo padre Balthazar Telles, natural de Lisboa, Provincial da Provincia Lusitana».

Entre varias curiosidades, menciona o padre Manoel d'Almeida, as ruinas de Acçuma ou Axuma como amostras da belleza original d'aquelles edificios; e outrosim confirma a tradicção dos artistas empregados em essas construcções, terem sido mandados vir do Egypto, por ser desconhecida na Abyssinia a arte de lavrar a pedra.